Propostas e Projetos para a UFABC
Concluí há pouco o meu doutorado. Já que eu escolhi seguir carreira acadêmica, isso significa que estou agora na fase dos concursos, a mais desafiadora de toda a carreira, e em vários aspectos. Significa que preciso ficar atento a concursos que estejam abertos ou que venham a abrir em breve, assim como devo ler cuidadosamente os editais, devo procurar conhecer bem as instituições, os cursos e cada um dos docentes relacinados a tais cursos, de modo a ser capaz de compreender em detalhes onde estou me candidatando a trabalhar e de que maneira eu poderei contribuir. Fora isso, o que talvez seja mais desafiador, eu precisarei identificar o que os editais apresentam como conteúdo das provas; e, mais ainda, preciso organizar e seguir um bom plano de estudos para cada um desses concursos. Enquanto isso, para me sustentar financeiramente, mas considerando que precisarei me preparar para os concursos, terei de realizar um pós-doutorado com bolsa, o que geralmente dura de 1, embora costume ser possível solicitar uma prorrogação de mesma duração, desde que tenha sido justificada e aprovada pela comissão responsável.
Essa fase de pós-doutorado com preparação para concurso público de docente é uma etapa que pode levar anos, embora eu torça para que não sejam tantos assim. Caso não consiga ser aprovado no concurso e convocado para assumir o cargo, infelizmente, a não ser que o pós-doutorado ainda tenha um prazo significativo por vir, posso ter de submeter um novo projeto de pós-doutorado e torcer para conseguir uma boa bolsa de pesquisa. Nesse cenário, que já é indesejado, caso não consiga a bolsa de pesquisa para esse segundo período de pós-doutorado, talvez eu precise fazer uma das coisas que eu mais detestaria — buscar oportunidades como docente em alguma instituição de ensino superior na rede privada ou, o que talvez seja muito pior, submeter-me ao infame Mercado de Trabalho em busca de alguma oportunidade em que eu consiga atuar com os conhecimentos que possuo —, mas, considerando como eu sei que é o Mercado de Trabalho, isso é tão tenebroso aos meus olhos, que, só de pensar nisso agora, eu já me sinto mal — não é brincadeira —; então, neste momento, prefiro fingir que isso nem ao menos é uma possibilidade.
De qualquer forma, sei que, durante essa fase de concursos públicos, que eu espero conseguir vencer o quanto antes e, finalmente, poder começar minha carreira como docente em uma universidade pública dentre aquelas em que eu sonho em conseguir adentrar e atuar, será necessário elaborar propostas de atuação, tanto em relação às pesquisas a serem conduzidas ao longo de minha carreira quanto em relação a outros projetos que eu terei de elaborar, propor, implementar e conduzir ao longo das próximas décadas na instituição. Isso é algo significativamente complexo. Demanda muito cuidado, além de muito conhecimento sobre a instituição, sobre o centro (ou departamento), sobre o campus, sobre o curso, sobre os docentes e sobre os discentes da instituição; e, além disso, a depender de quais forem as propostas, vários outros elementos também podem ser adicionados à já expressiva lista de itens a considerar para uma boa proposta de projeto, como a economia local, o meio ambiente local, a cultura local, a infraestrutura da região, entre tantos outros elementos que, mesmo individualmente, já possuem todo um amplo leque de complexidades e idiossincrasias.
Andei pensando no que eu poderia propor. Cheguei a conversar com amigos e colegas para avaliar se algumas de minhas ideias ao menos têm algum valor aos seus olhos. Felizmente, pelo menos aos olhos deles, as ideias parecem interessantes, mesmo que não sejam simples de serem implementadas. Fora isso, sei que, como estamos lidando com algo extremamente subjetivo, é esperado, além de totalmente compreensível, que haja discordâncias quanto à viabilidade aos olhos de terceiros; porém, ainda assim, considero interessante externar algumas dessas ideias, já que talvez isso possa me ajudar a, futuramente, poder consultá-las e, se possível, aperfeiçoá-las, de modo a facilitar sua implementação, expandir seu alcance ou aprimorar seus efeitos. Vamos a algumas delas.
História e Historiografia da Engenharia e da Computação
Em algumas áreas da Ciência, existe uma forte valorização de sua história e até mesmo de sua historiografia. Isso é algo muito bom, mas não tão comumente explorado de uma forma tão proveitosa. No início de uma disciplina, principalmente na graduação, é comum que professores tendam a motivar seus alunos utilizando uma pequeníssima fração do que vem a ser a história da área, mas não estou me referindo a algo assim, já que, por mais importante que isso seja, é muito simples diante do que tenho em mente.
Um dos problemas é o fato de que isso ocupa apenas uma pequena parte da primeira aula da disciplina, o que já restringe severamente a profundidade dessa informação. Outro problema é a utilização de fontes pouco confiáveis sobre a história da área, que muitas vezes são apresentadas também sem fornecer as fontes originais e sem a confiança de terem sido adquiridas por alguém que realmente entenda do assunto.
Mais um problema é o perigoso hábito — até um tanto bizarro por ocorrer dentro da Academia — de tenderem a acreditar que não seria necessária a participação de algum cientista pesquisador da área de História ou de alguma outra área próxima, como Sociologia ou Antropologia, para pesquisar sobre tópicos de História e Historiografia, só porque o objeto de estudo é referente a uma determinada área técnica, como se, por exemplo, um físico, apenas por ser físico, pudesse efetuar todo um complexo trabalho de pesquisa sobre a história da física sem que, para isso, fosse preciso qualquer tipo de preparo específico que o ajudasse a compreender aspectos epistemológicos distintos dos de sua área — Física — e compreender que o fato de haver um outro olhar epistemológico, distinto daquele ao qual está acostumado, não caracteriza ausência de método científico.
É preciso respeitar outras áreas da Academia que se baseiam em outras epistemologias e dar espaço para que os cientistas dessas outras áreas, que também são científicas, realizem seu trabalho de modo que respeite, com o devido rigor, o que nessas áreas é compreendido como o mais adequado. Nós, que não somos historiadores, não somos os profissionais que devem dizer como o trabalho de um pesquisador científico da área da História deve fazer seu trabalho, mesmo que para nós não pareça fazer sentido. Se tivéssemos formação para isso, ainda que de forma adjacente, eu compreenderia, mas raramente é esse o caso.
Em geral, o que vejo são acadêmicos, principalmente de áreas de exatas, se comportando de modo que parece sugerir que cientistas “de verdade”, supostamente, seriam os “de exatas”; e que, “se não há dados, é só opinião”, como se todas as ciências tivessem de seguir uma mesma epistemologia. Aliás, aparentemente, pouquíssimos cientistas “de exatas” parecem se preocupar com o estudo das epistemologias. Seria muito mais proveitoso se pudéssemos contar com o trabalho de pesquisa conduzido por pesquisadores científicos em História, Sociologia ou Antropologia, e se pudéssemos ter contato com os resultados das pesquisas elaboradas por esses profissionais de uma forma que fosse conveniente a partir da perspectiva do público.
Poderiam ser organizados eventos dentro do campus universitário, com direito a todo um dia de atividades. Durante esse dia, haveria palestras, mesas redondas, colóquios, oficinas etc. A universidade poderia, à medida do possível, utilizar seus ônibus para facilitar o acesso de escolas públicas de toda a região, priorizando escolas mais distantes ou que tivessem uma maior concentração de alunos ou professores com dificuldades de locomoção. Os alunos das escolas públicas, durante esse dia, poderiam fazer suas refeições no Restaurante Universitário (RU) gratuitamente. Além disso, poderíamos aproveitar o fato de que tantos alunos e professores da rede pública já se encontrariam dentro do campus universitário para mostrar a eles o que é uma universidade pública, com direito a um passeio guiado por todo o campus, passando por salas de aula, laboratórios de pesquisa, central multiusuário, RU, espaços de convivência, ginásio poliesportivo etc. Uma parte dos benefícios desse evento é mostrar aos alunos e professores da rede pública de ensino que todos são bem-vindos ali; que aquele é, também, um espaço deles; que é uma instituição pública e gratuita, de livre acesso; que ninguém ali deve se sentir intimidado ou repelido; e, mais do que isso, que todos ali estão convidados a entrar lá como alunos e, quem sabe, um dia, como Técnicos Administrativos (TAs) ou Docentes.
É importante que mais pessoas se interessem por uma formação acadêmica formal, séria, completa e profunda, mesmo que várias dessas pessoas não tenham qualquer interesse em seguir uma carreira acadêmica depois. Mas muitas pessoas, infelizmente, não se sentem atraídas por essas formações, principalmente por acreditarem que se trata de algo muito distante de suas realidades ou de suas capacidades. É essencial mostrar a essas pessoas o que é uma universidade, o que é feito dentro do campus, quem são os profissionais que trabalham todos os dias lá dentro, além de também se preocupar em mostrar que quem segue uma carreira acadêmica não é “um gênio”, um ser humano acima dos demais, uma pessoa com maior capacidade do que qualquer outra pessoa, mas, sim, gente comum, como qualquer outra pessoa, que teve acesso a uma formação que lhe permitiu aprender sobre determinada área de estudo, que se esforçou bastante para aprender sobre aquele assunto com bastante profundidade, e que hoje trabalha ali ajudando a sociedade por meio da pesquisa científica, do ensino acadêmico-científico, da extensão universitária e da gestão da própria instituição. É preciso desmistificar a universidade, a Academia, a Ciência e tudo mais que essas pessoas, equivocadamente, foram levadas a aprender que “não é para elas”; afinal, a não ser que elas já tenham aprendido muito bem do que se trata e que elas tenham, por livre e espontânea vontade, optado por não seguir por esse caminho, é, sim, para elas também.
Agora, boa parte disso, ainda que não tudo, já é, há algum tempo, discutido quando o assunto é a Ciência ou a Matemática; no entanto, não me lembro de ter visto alguém abordando isso, dessa forma, focando na Engenharia e na Computação; por isso, acho que algo nessa linha poderia — e deveria — ser feito focando em Engenharia e na Computação. Conhecer os equipamentos, as técnicas, as fórmulas, os materiais, os acessórios, além de muitas outras coisas, bem como conhecer as pessoas por detrás disso tudo, mas sempre com todo o cuidado para não permitir que ocorra ainda mais proliferação de pensamentos baseados em mitos, já que a ideia é derrubar os mitos. Nada pode ser apresentado de forma performática, cinematográfica, cênica, espetaculosa etc.
As coisas e as pessoas devem ser apresentadas e discutidas de forma realista, sem pirotecnia, com os pés no chão, com o devido cuidado para deixar claro que quem pesquisou e desenvolveu aquilo era um ser humano dedicado, esforçado e estudioso, mas, ainda assim, um ser humano. Não há magias, não há mitos, não há milagres, não há “dom”; é apenas esforço bem direcionado, com persistência, com paciência e com a consciência de quem nem sempre se acerta, mas que o erro faz parte do processo de aprendizagem e que não deve ser visto como um fracasso, mas, sim, como uma etapa intermediária, que também indica estar caminhando para cada vez mais perto da solução enquanto se mapeia por onde não passar em uma próxima tentativa, que pode até vir a ser feita por outrem.
É muito importante que fique claro que não se trata apenas de história da Engenharia e da Computação; é tanto história quanto historiografia; e a historiografia aqui não é menos importante que a história; na verdade, talvez até seja mais importante para os principais objetivos desta proposta, já que o principal aqui é derrubar mitos relacionados às áreas abordadas e ajudar as pessoas a perceber que elas também podem participar da Engenharia e da Computação, inclusive a nível acadêmico se assim desejarem.
Aproximação entre Graduação e Pós-Graduação
Outra proposta interessante é a de aproximar mais a Graduação da Pós-Graduação por diferentes caminhos. O primeiro caminho é o das disciplinas. Alguns dos cursos da universidade já fazem isso à sua maneira, mas minha proposta vai na direção de estimular que isso seja feito de forma mais ampla, fazendo com que uma mesma turma seja cursada por alunos de Graduação e de Pós-Graduação. O conteúdo poderia ser o mesmo que já seria abordado na Pós-Graduação, e o aluno da Graduação que quisesse se matricular nessa disciplina poderia solicitar a matrícula da mesma forma que faria no caso de disciplinas da Graduação, e sem aquela amarra de antes precisar ter colado grau de um curso da graduação para que, só então, passe a tero direito de solicitar matrícula como Aluno Especial. A ideia não é a de acabar com a posição de Aluno Especial; na verdade, em essência, ela continuaria existindo, mas não no caso desse aluno que já é discente matriculado em um curso de Graduação e que deseja apenas cursar uma disciplina da Pós-Graduação.
Esta proposta visa estimular que mais alunos cursem disciplinas dos programas de Pós-Graduação, o que produz um melhor aproveitamento dos recursos que já teriam de ser despendidos, tanto em relação a aspectos de infraestrutura quanto a aspectos de recursos humanos da instituição. Certamente, com turmas mais cheias na Pós-Graduação, alguns docentes poderiam se sentir inclinados a alegar quer isso seria um problema para eles devido ao fato de haver mais atividades avaliativas a serem corrigidas, por exemplo, mas esse seria um argumento questionável, visto que o aluno que cursaria essa disciplina em uma turma da Pós-Graduação não faria a mesma disciplina na versão da Graduação; e, caso se trate de uma disciplina exclusiva da Pós-Graduação, ela poderia contabilizar créditos de disciplinas de Opção Limitada ou Livres, o que o aluno teria feito com alguma outra disciplina pela mesma finalidade; logo, não, não se trata de um caso em que os docentes teriam ainda mais trabalho, mas, sim, um caso em que o trabalho que os docentes teriam simplesmente seria distribuído de uma outra maneira.
O segundo caminho dessa aproximação viria por meio do Trabalho de Conclusão de Curso (TCC), também chamado de Trabalho de Graduação (TG) ou de Projeto de Graduação em Computação (PGC) — este último, no caso exclusivo do Bacharelado em Ciência da Computação (BCC). Neste momento, optarei por me referir a todos esses trabalhos pela sigla TG, dada a minha maior proximidade com a Engenharia de Informação. Nesse caso, alunos da Pós-Graduação poderiam se inscrever para atuar como co-orientadores de TG. Um docente da universidade continuaria sendo o orientador e, portanto, o principal responsável pela orientação do aluno, mas passaria a haver a figura do co-orientador para ajudar ainda mais os alunos e, também, para ajudar o docente a ter uma redução parcial em sua carga de atividades. Com isso, o pós-graduando poderia receber uma bolsa — e aqui eu já antecipo que seria necessário garantir a possibilidade de acúmulo desta bolsa com absolutamente qualquer outra bolsa de pesquisa que o aluno já receba, independentemente de qual instituição for a responsável pelo seu pagamento —, o que conferiria um estímulo financeiro, e ainda teria um outro estímulo, que seria dado pelo próprio Programa de Pós-Graduação ao qual estivesse vinculado, já que ele receberia créditos equivalentes ao de uma disciplina cursada durante aquele período e, mais do que isso, receberia um certificado da instituição que garantisse que ele foi co-orientador de um TG.
É muito importante deixar claro aqui que a ideia desta proposta não é a de remover totalmente a responsabilidade dos docentes e terceirizar por completo essa tarefa para os pós-graduandos; em vez disso, o objetivo é permitir e estimular que os pós-graduandos se aproveitem — no bom sentido — do fato de que os alunos precisam de orientação e de que os docentes se encontram significativamente sobrecarregados para que, eles — pós-graduandos — possam atuar contribuindo, concomitantemente, para o papel de ajudar na co-orientação dos graduandos e na redução da sobrecarga dos docentes, mas que, além disso, enriqueçam ainda mais a sua própria formação, passando pela experiência real de orientar alunos de forma assistida ainda durante seu curso de Pós-Graduação — algo raro — em vez de apenas imaginarem como isso deveria ser feito. Sem querer soar desrespeitoso em relação aos docentes, mas poucos parecem realmente ter noção sobre como se orienta bem um aluno, e não considero que isso seja realmente “culpa” — acho que esta palavra não faz muito sentido aqui, pois não acho que haja “culpados” — deles; só acho que são pessoas que jamais foram devidamente preparadas para essa finalidade, mas querem cobrar isso dessas pessoas — às vezes, de formas até maldosas — quando entram em uma universidade, sendo que isso, em momento algum, foi mostrado a elas, e ninguém sugeriu livros, recomendou cursos, forneceu materiais etc. Só querem que o docente chegue já sabendo como fazer, e fazer bem! Não me parece razoável, tampouco justo. Por isso, insisto que me parece muito importante propor aos pós-graduandos a possibilidade de passarem por mais essa enriquecedora experiência.
Dito isso, também acho que essa proposta precisa vir acompanhada da garantia de que esse tempo e esse esforço dedicados a essa tão nobre finalidade, que ajuda os graduandos, os docentes e até os próprios pós-graduandos, merecem uma recompensa dupla, que penso que deveria vir na forma do abatimento de créditos obrigatórios quanto na forma de dinheiro — uma bolsa. Os créditos deveriam ser contabilizados na mesma categoria de créditos a serem cumpridos durante a pós-graduação, tanto Mestrado quanto Doutorado, permitindo até que isso seja feito por mais de uma vez, e contabilizando tanto quanto uma disciplina típica, o que permitiria que o aluno até pudesse optar por participar dessa empreitada acadêmica em vez de simplesmente cursar mais uma disciplina qualquer. Uma forma alternativa de lidar com isso seria criando uma disciplina especificamente para realizar isso, com os alunos da pós-graduação que fossem alunos de tal disciplina atuando como co-orientadores de docentes e por ali, na disciplina de orientação de alunos — talvez até pudesse ser esse o nome, mas não foi meu intuito sugerir isso formalmente —, agindo como em uma disciplina de alguma licenciatura ou de algum curso de Pedagogia ou Educação, levando para a sala de aula as questões enfrentadas durante a orientação e discutindo com colegas a fim de compartilhar saberes e enriquecer o repertório de todos, discentes e docentes. De repente, poderia até mesmo ser uma disciplina dada em parceria com o pessoal das Licenciaturas, ou da Pedagogia, ou da Educação, ou algo assim.
Referente à bolsa, uma das dores de cabeça que precisariam ser enfrentadas com firmeza é a existência de uma bolsa para que isso fosse feito, e que tal bolsa pudesse ser recebida independentemente de o pós-graduando já receber qualquer bolsa de pesquisa, fosse da própria instituição de ensino, fosse de alguma agência de fomento, cumulativamente, sem a desculpa de que haveria aí o acúmulo de bolsas e, portanto, que não seria possível que isso ocorresse; afinal, a bolsa não tem que ser compreendida somente como uma forma de ajudar o aluno, mas, sim, como uma recompensa justa para um trabalho realizado pelo aluno, principalmente considerando que é um trabalho bastante exigente, tanto em termos de tempo quanto em termos de esforço.
E não pode ser uma bolsa com um valor fajuto, pois isso seria quase o mesmo que não existir bolsa. Vemos isso pelas próprias bolsas de pós-graduação, que às vezes até existem, mas que nem sempre os programas conseguem distribuir por falta de alunos interessados; e não é preciso pensar muito para entender o motivo disso, já que os valores são tão baixos, que qualquer estagiário de qualquer banco ganha bem mais, sendo que muitos não chegam a ter de se dedicar tanto quanto alguns dos bolsistas, e lembrando que estou me referindo a bolsas de Mestrado e Doutorado, ou seja, de quem já concluiu pelo menos uma Graduação, que já tem uma certa idade um pouco mais avançada do que um graduando típico, que já está em outra fase da vida, dependendo de mais dinheiro para conseguir se sustentar, e que, em troca de valores muito inferiores aos que o Mercado oferecerá, dificilmente aceitará se submeter a toda uma carga de trabalho equivalente ao de um trabalho em regime da Consolidação das Leis do Trabalho (CLT).
O próprio termo “bolsa” já não é adequado nesse contexto. Nós temos esse costume por motivos muito negativos, e só reproduzimos o uso do termo porque temos esse hábito, mas essa palavra traz consigo toda uma série de questões problemáticas que só servem para atrapalhar muito o adequado desenvolvimento da área, já que desvaloriza quem atua nela, desestimula potenciais candidatos a terem realmente o interesse de entrar nela, faz com que muito dinheiro público seja investido de maneira nem um pouco inteligente por fazer com que o indivíduo, cedo ou tarde, migre para o Mercado de Trabalho (privado) e, com isso, leve consigo tudo o que havia aprendido apenas para proporcionar lucros ainda maiores aos já ricos empresários com condições de contratar profissionais assim e, infelizmente, valendo-se de uma falsa crença de que profissionais assim, supostamente, seriam benéficos para a sociedade mesmo quando atuam no Mercado de Trabalho (privado), pois, supostamente, tenderiam a entregar mais qualidade, o que é falso, já que, pela lógica do Mercado, não necessariamente esse profissional seria adequadamente utilizado pelas empresas de modo a realmente proporcionar vantagens à sociedade; o que ocorre, em vez disso, é utilizar todo o poder intelectual desse profissional muito bem-formado para maximizar seus lucros, o que não depende do fornecimento de benefícios sociais a quem quer que seja.
Fora isso, o termo “bolsa” passa a falsa impressão de que o pós-graduando é “só um estudante”, diminuindo a moral que esse profissional — sim, é um profissional, pois o que faz ali, embora envolva estudos, tal como um estudante teria em seu dia a dia, já há uma série de responsabilidades relacionadas à condução de pesquisas científicas, trabalho em laboratório, participação em eventos acadêmicos, participação na organização de eventos científicos, publicações etc. E, para piorar, muitos se baseiam nessa ideia de que o pós-graduando seria “só um estudante” para tentar justificar valores ridiculamente baixos nas bolsas, como quem sugere que, por, supostamente, serem “só estudantes”, valores que normalmente seriam considerados muito baixos passariam a ser mais facilmente aceitos. Vale lembrar que o pós-graduando recebe somente a bolsa; não há outros pagamentos; e isso faz com que o que ele recebe seja quase o mesmo que um prestador de serviços que tenha um Cadastro Nacional de Pessoa Jurídica (CNPJ) — o tal “PJ” —; por isso, aos meus olhos, o razoável seria pagar pelo menos o que se espera que paguem por um bom profissional que atue como prestador de serviços — PJ — a uma empresa. Em outras palavras, se você acha inaceitável receber menos que, digamos, o equivalente a R$ 7.000,00 ao mês por um contrato de PJ, não há motivos para achar aceitável receber menos do que isso para atuar como um bolsista de pesquisa; e, caso você ache que pós-graduados pesquisadores devem receber menos do que prestadores de serviço que atuem com contratos de PJ mas que trabalhem quase como um trabalhador qualquer CLT, é porque você está simplesmente desvalorizando o pós-graduando.
O terceiro caminho, a meu ver, é o das ICs, em que os pós-graduandos fariam uma atuação similar à proposta no segundo caminho, mas que agora, diferente de uma co-orientação de TG, seria feita uma co-orientação de IC. Aqui há uma veia científica mais forte. Não é o mesmo que se espera de um mestrando ou doutorando, mas já se trata, de fato, de uma formação científica e de um foco em produção de Ciência. Deve haver uma preocupação com pesquisa, com redação científica, com o aprendizado de toda uma dinâmica de trabalho, com o aprendizado de ferramentas específicas de trabalho acadêmico-científico, com a elaboração de trabalhos em determinados formatos, com a apresentação de trabalhos científicos, com a participação em eventos científicos etc. Por este caminho, das ICs, o aluno pode passar a ser membro de um laboratório de pesquisa ao qual o professor e o pós-graduando estejam vinculados — ou, caso não estejam vinculados a um laboratório, que seja formado um grupo de estudos, que futuramente talvez venha a dar início a algum laboratório ou a ser absorvido por algum laboratório já pré-existente. Mais do que isso, a fim de reforçar ainda mais essa aproximação, o próprio tema da IC pode ser uma parte de um trabalho maior que também esteja sendo conduzido na dissertação de mestrado ou na tese de doutorado do pós-graduando envolvido na co-orientação desse graduando; e isso ficará ainda mais interessante se houver mais graduandos e mais pós-graduandos envolvidos nisso, sempre com a supervisão do docente, que é a figura mais experiente e preparada para garantir o bom andamento de todos.
O quarto caminho gira em torno de um evento — o Encontro de Trabalhos de Graduação —, que seria realizado periodicamente e que contaria com membros de toda a instituição, tanto de Graduação quanto de Pós-Graduação. Todos seriam estimulados a participar e poderiam ganhar horas de atividades complementares ao participar. Alunos que estivessem perto de atingir os pré-requisitos básicos para se matricular no TG receberiam um convite formal para comparecer ao evento e, assim, tomar conhecimento de forma um pouco mais clara sobre a existência do TG e sobre todos os pormenores envolvidos, onde receberiam todas as informações necessárias para já se prepararem para dar início ao TG. Durante esse evento, seria dada uma explicação detalhada sobre o TG, além de serem dados direcionamentos sobre como proceder para encontrar um orientador e como encontrar um tema. Além disso, também seriam feitas palestras com o intuito de ajudar os alunos a aprender a lidar com determinados desafios típicos que ocorram ao longo do TG, como aprender a fazer uma boa busca por trabalhos científicos, aprender a escrever os textos usando redação científica, aprender a elaborar boas figuras bem representativas e autoexplicativas, aprender o básico sobre LaTeX, aprender a ter rigor na composição do trabalho acadêmico etc. Mais do que isso, os alunos que estivessem já realizando o TG fariam apresentações sobre o que têm feito, justamente referentes ao trabalho em andamento, apresentando tanto seus progressos quanto seus desafios ainda não vencidos, e até aproveitando a oportunidade para colher sugestões de docentes e discentes, tanto da Graduação quanto da Pós-Graduação, e aqui os pós-graduandos também poderiam ajudar na organização do evento, na condução das atividades e poderiam ajudar os alunos com sugestões e comentários que os ajudem a fazer um trabalho melhor.
O evento em questão não deve se tornar um motivo de medo e ansiedade para os alunos, assim como não deve ser simplesmente uma tarefa que tome ainda mais tempo dos já tão sobrecarregados docentes e para os pós-graduandos; deve ser exatamente o oposto disso para todos os participantes. O graduando deve enxergar o evento como uma oportunidade para treinar suas apresentações desde o TG I, mostrar os desafios que tem enfrentado, expor o que tentou fazer para lidar com tais desafios, explicar quais foram os efeitos dessas tentativas, externar o que planeja fazer daqui para frente, além de aproveitar para receber sugestões de todos os que quiserem participar da conversa que virá após a breve apresentação do aluno e dialogar com qualquer um dos que estiverem dispostos a isso, respeitando um limite de tempo para que vários outros alunos também possam participar. No caso específico dos graduandos ainda mais novos, que ainda não estejam em fase de realização de TG, essa participação não precisaria ser mandatória, mas já deveria ser estimulada, principalmente se já tivesse chegado relativamente perto de atingir os pré-requisitos para se matricular no TG; e essa seria uma interessante oportunidade para conhecer mais sobre o TG, para ajudar a ter ideias sobre temas, para conhecer professores e colegas mais experientes, e até para já participar das conversas sobre outros projetos — é um espaço de aprendizagem, e não um ambiente de medos, julgamentos e humilhações. Tanto os pós-graduandos quanto os docentes participariam para ajudar na condução do evento, para ajudar seus orientandos, além de poderem ver como eles estão se saindo, e para prospectar novos alunos.
O quinto caminho é um pouco parecido com o segundo e o terceiro; porém, em vez de orientar o graduando em trabalhos acadêmicos ou científicos, o pós-gradando seria uma espécie de tutor de um pequeno grupo de graduandos, que poderia ser, digamos, de 1 a 5 alunos. É importante deixar claro que não é o mesmo que um monitor de uma disciplina, já que esses indivíduos já existem e cumprem com esse papel; em vez disso, trata-se de um acompanhamento acadêmico de perto, com reuniões periódicas, com conversas sobre como lidar com problemas comuns da vida acadêmica etc. O Programa de Ensino e Aprendizagem Tutorial (PEAT) da Universidade Federal do ABC (UFABC) é algo que lembra vagamente o que tenho em mente, mas que já poderia ser entendido como um bom ponto de partida no caso de quem ainda não tenha compreendido muito bem do que se trata este caminho desta proposta. Esses tutores de pós-graduação seriam como irmãos mais velhos desses graduandos; obviamente, não poderiam realizar trabalhos de competência exclusiva de psicólogos ou psiquiatras sem ter a devida formação e a devida licença para tal, mas poderiam efetuar, dentro do permitido, o exercício da escuta também, ajudando os graduandos a externar suas dificuldades e a ajudá-los a enfrentar os desafios do dia a dia do universitário. Os tutores não devem executar tarefas ou atividades que sejam de responsabilidade dos próprios alunos, como resolver exercícios, mas devem ajudá-los a compreender melhor os conceitos e a se prepararem melhor para que os alunos passem a ser capazes de realizar todas as suas tarefas, o que significa que podem organizar aulas específicas, podem recomendar livros, podem passar tarefas, podem fazer reuniões para discutir sobre temas específicos, entre outras atividades que visem ajudar os alunos a cumprirem melhor com seus papéis.
Incluir habilidades artísticas visuais na universidade
Uma parcela muito expressiva do que é feito em uma universidade, o que inclui artigos científicos, livros, material de ensino, atividades avaliativas, apresentações, notas de aula, resolução de exercícios, oficinas, cursos, e por aí vai, tendem a envolver a elaboração de alguma arte para fins didáticos, de modo que ajude o público a compreender mais claramente algo que seja de interesse do autor explicar. O problema é que, em geral, acadêmicos, discentes ou docentes, de áreas distantes das artes não costumam ter habilidades artísticas muito bem-desenvolvidas, mesmo que tais habilidades não sejam especificamente visuais. Pode até haver casos excepcionais de acadêmicos que tenham a felicidade de trazer consigo um leque de habilidades artísticas raramente observadas em seus colegas, mas isso é algo que foge à regra. De modo geral, é raro que acadêmicos de áreas que não sejam artísticas tragam consigo essas habilidades.
Por isso, parte desta proposta é a de incluir, em caráter optativo, cursos ou disciplinas que visem ajudar toda a comunidade acadêmica a desenvolver habilidades artísticas que possam, então, ser exploradas justamente para fins acadêmicos, tanto para discentes quanto para docentes. Além de ajudar no desenvolvimento de um olhar mais completo sobre o mundo, já que noções artísticas também nos ajudam a enxergar aspectos que antes passavam despercebidos, essas habilidades ajudarão a elaborar esboços ilustrativos que ajudem a compreender melhor algumas questões, o que pode ajudar até mesmo em conceitos demasiado abstratos de Matemática, Física, Química, Biologia, Computação, Neurociências e Engenharia, bem como pode ajudar em notas de aula, em apresentações de trabalhos, na elaboração de livros, na preparação de atividades avaliativas etc. Até mesmo para quem já sabe que não seguirá carreira acadêmica isso será benéfico, já que, além de ser um benefício que o atingirá como aluno de uma instituição em que vários dos próprios docentes serão munidos dessa conveniente habilidade que será explorada nas aulas e nos materiais que serão utilizados ao longo de todo o processo de ensino-aprendizagem, há, ainda, a vantagem de que o próprio aluno, desde sua busca por estágio e até mesmo depois, já como egresso, sendo um profissional que atuará em alguma empresa, terá mais essas habilidades para enxergar o mundo de maneira ainda mais completa.
A meu ver, o melhor caminho é que, caso ainda não haja algo nessa linha, seja criado um núcleo de artes na universidade, e esse núcleo será responsável por cuidar de tudo o que for relacionado a isso, tanto no caso de disciplinas a serem ofertadas aos discentes quanto no caso de cursos de extensão universitária a serem ofertados tanto aos membros da comunidade acadêmica quanto a toda a sociedade. Para ajudar a conseguir fundos para proporcionar as melhores condições de infraestrutura e recursos humanos aos membros da comunidade acadêmica, podem ser cobrados os cursos de extensão universitária de quem não for membro da comunidade acadêmica, desde que sejam garantidos programas de gratuidade ou de bolsas a quem comprovar situação de vulnerabilidade socioeconômica. Ainda assim, é provável que haja a necessidade de verba proveniente de outras fontes, como da própria universidade, a fim de garantir o bom andamento de todas as atividades.
Algumas das habilidades artísticas que considero que seriam mais interessantes para fins como os que mencionei há pouco são o desenho, a pintura e a animação. Tenho a consciência de que estamos lidando com algo bem mais complexo do que essas palavras soltas podem dar a entender em um primeiro momento a quem for leigo, tal como é o meu caso. Dentro da área de desenho, por exemplo, eu imagino que haja vários tipos, várias técnicas, várias abordagens etc; e acredito que seja similar com pintura e com animação. Um mero exemplo disso é o fato de que técnicas exploradas para duas dimensões (2D) talvez sejam muito distintas de técnicas para três dimensões (3D); então, é possível que prefiram criar, por exemplo, uma disciplina ou um curso apenas para 2D e outro apenas para 3D. Não sei bem ainda. É algo que merece ser mais cuidadosamente discutido com um grupo de indivíduos que sejam dessas áreas para termos melhor noção sobre como elaborar isso de maneira mais completa, responsável e proveitosa para todos os envolvidos.
Ninguém tem de se sentir obrigado a aprender isso, mas todos devem se sentir convidados a aprender pelo menos uma habilidade artística, assim como todos também devem se sentir estimulados a isso. Poderia haver uma bolsa paga a quem cursar esses cursos ou disciplinas. Para estimular ainda mais isso, poderia haver um concurso em que conceitos científicos ou técnicos de áreas da Ciência ou da Engenharia fossem definidos como objeto a ser representado artisticamente; e, então, todos poderiam tentar criar sua própria versão, sem o auxílio de qualquer tipo de solução baseada em Inteligência Artificial (IA) ou afim; e, assim, ao final, uma banca julgadora avaliasse todas as obras artísticas propostas e escolhesse as que tivessem conseguido representar artisticamente da forma mais competente aquele conceito complexo daquela área. Essas obras de arte poderiam ser divulgadas pelos canais de comunicação da instituição, de modo que todos pudessem observar e contemplar os resultados. Talvez pudessem convidar os artistas para conversar sobre o processo de criação, os desafios envolvidos, as técnicas utilizadas, os recursos utilizados, as tentativas intermediárias que foram abandonadas ou adaptadas etc. E essa representação elaborada por esse membro da comunidade acadêmica poderia ser utilizada em materiais elaborados por discentes ou docentes que fossem destinados a fins internos da própria instituição ou à divulgação científica, sempre incluindo a devida autoria.
A fim de estimular isso de maneira ainda mais profunda, poderia haver espaço para que esses acadêmicos pudessem atuar em laboratórios de pesquisa científica ajudando pesquisadores a elaborar outras representações artísticas de conceitos complexos que venham a compor artigos científicos, livros e outros materiais acadêmicos ou científicos. A ideia aqui não é a de terceirizar o trabalho de um pesquisador que só tenha de fazer um gráfico ou uma tabela, já que não é essa a finalidade desse artista; a ideia é que conceitos mais abstratos e complexos possam ser visualmente mais bem-representados de maneira mais intuitiva e mais autoexplicativa. E é claro que esse artista receberia uma bolsa para desempenhar mais essa atuação tão importante no laboratório de pesquisa, assim como também teria acesso a um computador e a outros equipamentos condizentes com sua função; e, mais do que isso, seria estimulado a também desenvolver suas próprias pesquisas científicas ali. Esse indivíduo poderia até mesmo vir a ser um pesquisador científico que já faça parte do laboratório, e essa bolsa extra poderia ser acumulada no caso de ele também receber uma bolsa de pesquisa de qualquer agência de fomento.
Git da universidade
Estamos lidando com o caso de uma universidade pública. Isso me leva a crer que seja muito importante haver soberania institucional. Não é aceitável que a instituição possa ser comprometida de qualquer maneira que seja por conta de alguma dependência de algum produto ou serviço pertencente a alguma empresa privada que possa ter interesses escusos, sejam eles de origem própria, ou de algum grupo empresarial ou mesmo de alguma nação estrangeira que deseje prejudicar o Brasil. A universidade deve sempre conseguir se manter em pleno funcionamento sem ser prejudicada de qualquer maneira. No caso de sistemas de gestão da instituição, isso pode ser um problema ainda maior, principalmente se forem soluções fechadas, ou seja, cujos códigos não sejam auditáveis; afinal, em casos assim, resta apenas confiar que os códigos que estiverem em produção realmente fazem apenas o que seus criadores disserem, ou seja, resta apenas acreditar na palavra de alguém.
Proponho que seja criado um servidor Git da própria instituição, gerenciado por membros de uma comissão designada para essa finalidade, composta por discentes, docentes e TAs. Nesse servidor, poderão ser criados repositórios individualmente dedicados a cada projeto ou sistema da instituição. Podem ser criados repositórios públicos e privados. Todos os membros da sociedade, mesmo que nem ao menos sejam da comunidade universitária, poderão participar visualizando todos os repositórios públicos; e todos que quiserem contribuir serão bem-vindos. As contribuições podem ser feitas na forma de relatos de Bugs, na forma de participação de discussões, na forma de sugestões ou, principalmente, na forma de um Pull-Request, que pode ser compreendido como uma proposta já na forma de um código desenvolvido pelo próprio proponente.
Os sistemas da instituição são antigos, defasados, lentos, cheios de Bugs, com funcionalidades que não são tão relevantes, e vários deles não parecem ter sido projetados propriamente para a instituição específica, mas, sim, de forma genérica, para atender qualquer instituição, o que não respeita diversas características próprias dessa instituição específica. Fora isso, conforme havia dito, não são sistemas de código aberto; logo, não se pode saber ao certo o que exatamente está sendo executado, o que significa que também não se pode saber, em detalhes, o que talvez esteja ocorrendo com os dados, mesmo os mais sensíveis, da instituição e de cada um dos membros da instituição, sejam eles discentes, docentes ou TAs. Mais do que isso, há uma evidente falta de conexão entre sistemas e bases da mesma instituição; afinal, é muito comum que um requerente precise solicitar algo no setor X para depois preencher sua solicitação no setor Y e, assim, passe a ser capaz de solicitar o que gostaria no setor Z, e isso não faz sentido em 2025; já deveria ser tudo interconectado e automatizado.
Vamos a alguns exemplos. Quando efetuo minha matrícula como discente na universidade, ela já me obriga a entregar vários documentos, que devem ser apresentados tanto em sua forma original quanto cópia simples, sendo que a cópia fica retida na instituição. Mesmo se tratando de documentos que não mudam, como o RG, em alguns processos internos da instituição, sou obrigado a enviar meu RG. Por que isso ocorre, sendo que o meu RG já se encontra na base de dados da instituição? Vão dizer que é porque quem realiza esse processo não tem acesso a essa base? Se não tem, isso já é uma falha que precisa ser resolvida. Fora isso, pedem que eu faça login, o que implica verificar se sou eu mesmo quem está utilizando o sistema naquela sessão, mas, mesmo assim, pede que eu entregue, por exemplo, um comprovante de que não estou em débito com a biblioteca. Por que motivo isso é solicitado, considerando que, se já tive de efetuar o login no sistema da instituição, a instituição sabe quem sou eu e, portanto, pode consultar diretamente a base da biblioteca para, naquele mesmo instante, já verificar se eu tenho ou não tenho qualquer pendência? Por que eu tenho que obter, com algum TA, um comprovante de que eu participei de algo para que, então, eu entregue isso a algum outro TA, da mesma instituição e, em muitas vezes, até do mesmo setor, para solicitar algo? Em alguns casos chega a ser ridículo, já que você precisa solicitar ao TA um documento para que depois você entregue esse mesmo documento a esse mesmo TA para solicitar um outro documento. Parece um roteiro de comédia ao estilo inglês. Não me parece algo sério.
O próprio sistema de matrículas é horroroso. Qualquer um que tenha utilizado esse sistema ao longo de sua formação na universidade tem pelo menos uma história ruim para contar sobre esse sistema. Certamente, há muito o que melhorar nele. Se ele estivesse em um repositório Git, as pessoas poderiam abrir o código, verificar, linha a linha, os mínimos detalhes; e, se assim desejasse, poderia fazer um Fork no repositório, fazer modificações localmente, fazer um Push para seu próprio repositório remoto e, então, fazer um Pull-Request ao repositório da instituição com a finalidade de permitir que essa melhoria passe a estar disponível a toda a comunidade universitária. Mas até mesmo quem não tem tanto conhecimento sobre programação (ou que simplesmente não tem interesse em programar) tem condições de contribuir; afinal, mesmo um relato bem-elaborado que ajude a tomar conhecimento de um problema no repositório já seria uma grande contribuição. Também seria muito bom poder colher sugestões de recursos a serem implementados.
Mesmo considerando apenas discentes e docentes da Computação — e já antecipo que tenho total consciência de que não é preciso ser da área da Computação para ser capaz de contribuir com projetos de Computação —, nós já teríamos muitos membros muito mais do que capazes de participar de algo assim. Vejo isso, também, como uma grande oportunidade para aproximar discentes, docentes e TAs. Também podemos criar algumas bolsas para estimular que mais alunos participem, assim como podemos considerar que a participação nesse tipo de projeto, de caráter totalmente optativo, pode contabilizar pontos para progressão de carreira de TAs e docentes da instituição. Além disso, também poderia contabilizar pontos em atividades extracurriculares dos discentes, ou mesmo pontos em atividades de extensão. No caso dos discentes, isso também poderia beneficiá-los por um outro lado, que é o de servir para compor um portfólio que depois possa ser mostrado a recrutadores em processos seletivos externos.
Talvez pudessem permitir a criação de um perfil pessoal, tal como já funciona com todas as principais plataformas de Git, e que lá o indivíduo pudesse criar seu portfólio, mostrando todas as suas contribuições em repositórios da instituição, ou em repositórios próprios, ou mesmo repositórios de colegas. Embora haja um lado meu que seja um tanto avesso à ideia de embutir uma “gamificação” nisso, admito que tenho consciência de que uma parcela bastante expressiva dos alunos costuma ver isso como uma forma de estimulá-los mais; então, pensando nisso, talvez seja interessante implementar um recurso de pontuação que permita exibir em seu perfil suas métricas, como o número de Pull-Requests submetidos, o número de Pull-Requests aceitos, o percentual de Pull-Requests aceitos em relação ao total de submetidos, o número de repositórios oficializados — aqueles que a comissão oficial da instituição tenha avaliado e considerado que é bom o bastante para passar a fazer parte dos repositórios oficiais da instituição, dando os devidos créditos ao autor original do repositório —, o número de Forks que outros membros da comunidade deram em seus repositórios, a lista de todas as linguagens de programação utilizadas — possivelmente, com o percentual de linhas de código escritas em cada linguagem —, além de outras possibilidades, mas isso ainda é algo que pode ser discutido em mais detalhes depois.
Repositórios não institucionais, ou seja, que não sejam repositórios oficiais da instituição, podem ser escolhidos pela comissão responsável pelo Git oficial da instituição para serem institucionalizados quando se mostrarem projetos dignos de beneficiar a comunidade acadêmica de forma ampla, desde que a comissão responsável entenda que a proposta é viável e que a implementação já se encontra em fase suficientemente avançada a ponto de ter como ser implementada, ainda que em versão Alpha, para fins de testes.
Aprendizado de máquina como motivação pedagógica para estudantes do ensino médio
Tenho um olhar para o ensino básico que vai na contramão do que ouço alguns colegas comentando. Eu gosto da ideia de que o ensino básico tenha muitos conteúdos disponíveis aos alunos, mas não aprecio a ideia de que esses conteúdos estejam todos embutidos em disciplinas obrigatórias a todos os alunos. Penso que o mais adequado seria reformular as disciplinas, tanto no sentido de remover uma expressiva parcela do que hoje é considerado obrigatório quanto no sentido de talvez criar outras disciplinas para que esse conteúdo removido não passe a realmente não ser mais oferecido aos alunos, mas, sim, que passe a se encontrar em disciplinas optativas, mais avançadas, que possam ser cursadas pelos estudantes que assim desejarem, mas que não sejam mandatórias àqueles que preferirem seguir por outro caminho. Assim, as disciplinas estarão lá com o conteúdo, mas de forma optativa, e só serão cursadas por aqueles que quiserem. Os alunos até podem ser obrigados a cumprir uma quantidade mínima de créditos de disciplinas, mas quais serão as disciplinas cursadas é algo que pode ficar em suas próprias mãos para decidir.
Ao fazer isso, os alunos sentirão um alívio imenso por não serem sufocados com conteúdos que em nada lhes soam atraentes e, assim, passarão a ter melhores condições de aprender as partes que, essas, sim, são obrigatórias para uma formação mínima e, mais do que isso, terão condições de seguir uma direção que lhes pareça ser mais convidativa para complementarem suas formações. Mas não se engane; não é meu objetivo enfraquecer o ensino; muito pelo contrário. Eu só acho no mínimo estranho nós querermos cobrar que os alunos aprendam o que é um tritongo, mas não saibam a diferença entre um vereador e um deputado, sendo que eles sairão da escola sendo obrigados, por força de leis, a participar das eleições em seu país por quase toda a vida. Querem que os alunos aprendam o que é uma cotangente hiperbólica, mas não parecem tão incomodados com o fato de que os alunos saem da escola sem nem sequer terem noções básicas sobre como se higienizar. Acham razoável que os alunos saibam de detalhes acerca de todo o processo de independência de países que a maioria nem ao menos sabem apontar no mapa onde ficam, mas parece não incomodar tanto as pessoas que esses mesmos jovens não tenham a menor ideia de como escolher bons alimentos, como limpá-los, como prepará-los, como consumí-los e como armazená-los.
Não quero passar a impressão de que sou um utilitarista; não sou assim. Muito me incomoda a visão utilitarista; não se trata disso. O que me incomoda é pensarem que a educação básica está ruim por faltar conteúdo, mas o problema não é tão simples assim; aliás, na verdade, há conteúdo até em demasia, mas conteúdo questionável, que não precisaria ser obrigatório para todos; poderia até continuar lá, mas para turmas avançadas, compostas por alunos que realmente quisessem aprender mais sobre aqueles assuntos, o que poderia ser até estimulado que os alunos cursassem, mas não concordo que todas as pessoas precisariam sair da escola sabendo todos os pormenores de uma célula, ou sobre tudo o que há para se saber acerca de cada variação climática no país, ou mesmo sobre manipulações algébricas em operações envolvendo funções trigonométricas com relações de Euler.
Tudo isso foi dito para deixar claro que estou partindo de uma visão em que a Escola já tenha sido ao menos um pouco melhorada nessa direção de reforma do conteúdodas disciplinas. Tendo sido feito isso, posso considerar que vários dos alunos talvez apreciassem aprender algo sobre aprendizado de máquina, mesmo que a nível meramente introdutório e de forma bastante adaptada para evitar uma dependência demasiado complexa de tópicos totalmente inapropriados para um ambiente escolar. A ideia não é a de que esses alunos aprendam toda a matemática avançada que existe por detrás de algoritmos que assustariam até mesmo doutores em Matemática; a ideia é explorar aplicações de aprendizado de máquina, focando em algo que seja mais tangível aos olhos dos próprios alunos, para motivá-los a estudar mais sobre matemática e computação. Certamente, essa seria uma disciplina avançada, ofertada em caráter totalmente optativo, e contaria com um professor que, além de ter boas noções sobre aprendizado de máquina, também deveria ter boas noções sobre didática em sala de aula, principalmente voltada a adolescentes.
É muito importante tomar todo o cuidado, pois estamos lidando com adolescentes nesse projeto, e a ideia é que eles, em hipótese alguma, acabem traumatizados com conteúdos desse tipo. Eles devem passar por esse projeto muito felizes, sentindo-se positivamente desafiados, não como se duvidassem deles, mas como se confiassem que eles conseguiriam se sair muito bem, mesmo diante de algo (moderadamente) complexo e, devido a isso, fossem propostos esses desafios a eles, justamente por acreditarem que eles dariam conta. Para isso, eles precisam ter acesso a equipamento e a serviços adequados para que consigam ter uma boa experiência. Devem terminar o projeto sentindo vontade de estudar mais a respeito disso. Talvez, alguns poucos algoritmos de classificação, regressão e agrupamento já sirvam para isso, principalmente algoritmos menos complexos. Mesmo que talvez sejam apenas alguns poucos algoritmos, isso já deve ser mais do que o suficiente para proporcionar a sensação de ver um modelo funcionando bem, e isso é motivador.
Possivelmente, um algoritmo como K-Nearest Neighbors (KNN), um Ordinary Least Squares (OLS) e um k-Means até sejam boas escolhas para ajudá-los a ter algumas noções sobre cada objetivo. Falar um pouco sobre Mean Squared Error (MSE) e um pouco sobre Mean Absolute Error (MAE) também pode ser interessante. Mostrar o que é um algoritmo, o que é um algoritmo iterativo, mostrar um diagrama de blocos, tal como um fluxograma, e uma versão de um código que implementa esse fluxograma, a meu ver, também seria interessante. A utilização da linguagem Python em um ambiente como Jupyter Notebook também pode ser conveniente; e ali podem ser exploradas bibliotecas como Numpy e Matplotlib, pois facilitam na utilização de funções matemáticas e visualização de resultados.
É interessante explorar bastantes recursos visuais para isso, pois ajudará a tornar mais didático, mas isso não basta; é preciso trazer exemplos mais próximos dos próprios alunos. Para esses alunos, que estão indo atrás desse tipo de aprendizado, sim, o ensino de matemática pode ser mais intenso, e isso pode ser feito com o auxílio de ferramentas computacionais, o que pode tanto ajudar a aprender mais sobre Matemática quanto pode ajudá-los a aprender mais sobre Computação; e falo de Computação de verdade, e não simplesmente com o uso inadequado desse termo para, na verdade, só colocar a molecada para ficar em frente a um computador com acesso à Internet para ficar ouvindo música, conversando, vendo vídeos, participando de redes sociais e jogando.
Jornalismo científico universitário
Uma universidade tem como base o tripé formado por pesquisa, ensino e extensão. Existe uma atividade que engloba, por completo, todo esse tripé e que tem uma importância imensa para toda a sociedade, mas que, infelizmente, recebe apenas uma pequena fração da atenção que deveria receber — refiro-me à divulgação científica. A divulgação científica é balizada pela Ciência, mas envolve uma metodologia de trabalho de cunho jornalístico. Ambas as frentes são importantes — a Ciência e o jornalismo.
A própria Ciência envolve a divulgação científica em uma forma bastante específica, que é aquela em que cientistas de um mesmo campo interagem entre si de modo a compartilhar seus trabalhos, o que, pelo menos nos campos das assim chamadas Ciências Exatas — sim, para outras áreas da Ciência, é possível que a metodologia seja balizada por outras abordagens epistemológicas, mas falarei aqui me baseando nas Exatas porque é o que eu conheço melhor —, costuma envolver uma explicação sobre o problema abordado, materiais e métodos utilizados, resultados, discussão e conclusão, sempre incluindo as referências utilizadas, além de informações suficientemente detalhadas que visem colaborar para que haja reprodutibilidade e falseabilidade. Pela própria maneira com que a Ciência é feita, é natural que essa comunicação realizada apenas entre os próprios cientistas da mesma área seja feita com alguma competência, de modo a ser pelo menos suficiente, ainda que nem sempre seja tão bem-executada assim; porém, quando o cientista precisa se comunicar com quem não é de sua mesma área, começamos a observar alguns problemas mais gravesaparecendo; e, quando a comunicação precisa ser feita com quem nem mesmo é cientista de área alguma, a situação fica muitíssimo ruim; e, para piorar de modo extremo, basta ver como fica quando a comunicação deve ser feita com quem teve uma formação básica demasiado esburacada.
Não temos que condenar o cientista — o profissional que efetivamente faz com que a fronteira do conhecimento avance um pouco mais a cada publicação — por não ser tão eficaz em sua comunicação; podemos melhorar sua formação, desde o mais cedo possível, para que a comunicação — oral, escrita e artística — passe a ser uma importante ferramenta muito bem-desenvolvida que faça parte de seu repertório, sua caixa de ferramentas, seu leque de competências, mas, mesmo assim, não devemos sobrecarregar esse profissional com mais uma série de exigências; isso deve ser visto como um extra — de grande relevância, mas, ainda assim, apenas isso —, e não como uma condição sine-qua-non para que o indivíduo possa ser considerado um bom cientista. Agora, por outro lado, temos vários grupos distintos na sociedade que precisam de uma significativa quantidade de informação científica que, infelizmente, pouquíssimos são realmente capazes de disseminar de maneira eficaz e eficiente, e essas pessoas precisam que alguém lhes garanta isso; caso contrário, todos sofreremos com consequências dos mais variados tipos relacionados a essa ignorância científica. Todos nós já sofremos muito com o que o negacionismo científico pode produzir; a sociedade e o próprio planeta Terra não aguentarão muito mais disso.
Por isso, esta proposta é a de estimular os universitários a participar de projetos de divulgação científica pelas mais diversas frentes, o que pode incluir artigos de divulgação científica, Podcasts, vídeos, livros, revistas, jornais, Blogs, Vlogs, jogos, palestras, cursos, oficinas, feiras, entrevistas etc. Mas essa divulgação científica deve ser feita de modo competente e com muito cuidado; não se pode simplesmente executar abordagens que apenas façam o famoso “mais do mesmo”, ou seja, que reproduzam atos prejudiciais que já sejam provocados por quem hoje já se encontra fazendo um trabalho de qualidade duvidosa em relação a essa questão. Já existem, aos montes, divulgadores científicos que cometem falhas graves dos mais variados tipos, e isso seria simplesmente inadmissível aqui. Trata-se de um trabalho realmente muito sério. E é por isso que parte da proposta envolve a criação de um núcleo de divulgação científica, o que pode ser feito na modalidade de uma especialização (Lato sensu), por exemplo, mas que não precisa ser dessa forma.
O núcleo de divulgação científica universitária poderia ser formado junto a cursos ou grupos já pré-existentes da instituição, de modo a facilitar a sua criação nos mais variados aspectos e de modo a respeitar e valorizar os conhecimentos dos já presentes membros da instituição que queiram unir forças para organizar, gerenciar e fomentar esse núcleo. O núcleo poderia ser responsável pelo curso de especialização em divulgação científica (Lato sensu), assim como, também, por cursos de extensão, palestras, Podcasts, vídeos, livros, revistas, jornais, Vlogs, Blogs, jogos, oficinas, feiras etc. relacionados à divulgação científica.
Podemos pensar em um nome temporário. Digamos que seja Núcleo de Divulgação Científica (NDC), só para facilitar um pouco a comunicação por aqui. Estou pensando aqui em alguns projetos que o NDC poderia ajudar a realizar, como atividades em escolas públicas, preparo de materiais focados em idosos, atividades em comunidades carentes, eventos dentro da própria universidade, como visitas guiadas pela universidade, passando por diferentes laboratórios de pesquisa, conversando diretamente com pesquisadores em seu local de trabalho, conhecendo as bibliotecas, talvez até podendo realizar alguns experimentos guiados, tal como seria com um aluno de graduação, mas com assistência total de técnicos de laboratório, professores e alunos veteranos já familiarizados com atividades laboratoriais.
A forma simplória como muitos enxergam a divulgação científica já nos mostra a importância de investirmos maiores esforços nela. Divulgação científica possui muitas camadas de complexidade. É preciso considerar a complexidade da informação a ser divulgada, o público ao qual se almeja comunicar a informação, os meios mais adequados para se comunicar a informação entre aqueles que estejam disponíveis, os recursos aos quais haverá acesso para cumprir com o projeto de divulgação, o intervalo de tempo durante o qual a divulgação será realizada, as competências dos colaboradores envolvidos no projeto de divulgação, além de muitas outras questões a serem consideradas para que seja possível elaborar e implementar um bom projeto de divulgação científica. Isso demanda conhecimento, esforço, recursos, colaboração, paciência, concentração e humildade.
Oficina permanente
O trânsito pode ser um ambiente hostil. Consigo imaginar muitas fontes de desconfortos ou medos aos olhos de muitas pessoas. O próprio veículo, independentemente de ser um carro, uma moto ou qualquer outro tipo, possui diversas fontes de medos a muitas pessoas. No caso de veículos manuais, o controle do pedal de embreagem aliado ao controle das marchas, pode ser um grande desafio nos primeiros contatos com o veículo; algo similar pode ser dito sobre o controle dos pedais de freio e aceleração em uma ladeira; e imagino que possamos dizer algo não muito diferente a respeito do ajuste e da correta utilização dos espelhos e do volante durante uma baliza. Os elementos externos intensificam ainda mais os temores, como sinalizações malfeitas, iluminação inadequada, baixa qualidade da pista, grande volume de veículos, presença de veículos de outros tipos (e.g. motocicletas, bicicletas, caminhões, ônibus etc.), clima inconveniente (e.g. chuva, vento intenso, neve, temperaturas extremas etc.), poluições — inclusive visual e sonora —, condutores com condutas inadequadas e desrespeitosas, pedestres com condutas inadequadas e desrespeitosas, ameaças de violência verbal ou física, multas nem sempre aplicadas de forma correta, entre vários outros exemplos. E, para piorar, há ainda as questões burocráticas que envolvem a posse do veículo e a habilitação para dirigir, como a declaração de bens, o recolhimento de impostos, os licenciamentos, as revisões, renovação de carteira de habilitação etc.
Temos, ainda, que nos lembrar do fato de que o condutor é um ser humano, o que significa que é um indivíduo que traz consigo todas as características que já possuía enquanto ainda não era um condutor. A ideia de que, ao adentrar um automóvel, o indivíduo deixa de fora todas as suas características de ser humano e se transforma em um robô que simplesmente executa pragmaticamente a função mecânica de um condutor, francamente, chega a ser risível, de tão descolada da realidade que é. Para algumas pessoas, a atividade de dirigir um veículo pode ser traumatizante e pavorosa. Algumas pessoas não aceitam nem ao menos se sentar no assento do motorista, mesmo que com o motor desligado, ainda que a chave nem sequer esteja no contato. Isso não é frescura, bobagem ou simplesmente ignorância. Em muitos casos, trata-se de algo patológico, o que pode demandar a atuação de um psicólogo devidamente formado, com experiência em casos assim, além de todo um trabalho cuidadoso, de médio prazo, voltado a, aos poucos, ajudar o condutor a se adaptar de forma saudável às realidades do trânsito e, assim, conseguir se tornar alguém efetivamente habilitado — muito mais no sentido de autocontrole e empoderamento —, o que ajuda esse indivíduo a viver na sociedade de uma maneira ainda mais completa e, portanto, com maior grau de liberdade para si e com maior grau de capacidade de atuação em relação aos demais em algum eventual caso de necessidade. Não é à toa que existem tantas autoescolas destinadas a alunos já habilitados, pois são destinadas majoritariamente a esse público.
Ao longo de minha vida, desde a época da escola, enquanto era ainda apenas uma criança, lembro-me de ter visto, em várias das escolas pelas quais passei e em ambientes dos mais variados tipos, pessoas enfrentando muitas dificuldades para lidar com situações que envolvessem alguma atividade prática, alguma atividade experimental, alguma atividade que envolvesse efetivamente fazer algo, principalmente quando a atividade em questão tivesse de ser executada ao vivo, naquele mesmo momento, diante dos olhares de outrem. Já conversei sobre isso com muitas pessoas, e quase sempre as pessoas parecem seguir por um caminho que sugere que isso seria relacionado ao medo de acabar tirando uma nota ruim, mas eu respeitosamente discordo dessas pessoas, pois vi muito disso ocorrendo em situações que nem ao menos envolviam propriamente uma avaliação. Também já ouvi que não se trataria necessariamente de uma questão de notas, mas, sim, de avaliação em um sentido mais amplo, o que poderia envolver até mesmo o mero julgamento de terceiros sobre si, ainda que tais pessoas nem sequer externassem de forma explícita suas opiniões; contudo, por mais que essa linha de pensamento faça sentido, ela não responde o motivo de esse receito todo ocorrer até mesmo em situações em que, na verdade, o que ocorre é justamente o oposto disso, já que são observados vários indivíduos dando apoio explícito ao indivíduo que estiver executando algum papel ativo na atividade, e até haja elogios e encorajamentos; afinal, mesmo em situações assim, observei muitos casos de pessoas que também exibiam um flagrante desconforto, o que muitas vezes se confirmava com relatos dos próprios indivíduos, o que elimina por completo qualquer resquício de dúvida sobre ter sido mera impressão minha. E, além disso, também ouvi pessoas sugerirem que esse medo seria proveniente de mera falta de prática, o que também responde sobre uma boa parcela dos casos, mas que não me parecia ser nem sequer o caso da maioria, já que vi muitas daquelas pessoas praticando por várias vezes, mas o medo ainda se fazia presente.
Embora meus primeiros contatos efetivos com o ensino superior tivessem ocorrido no ano de 2008, àquela época eu me encontrava cursando o Bacharelaem em Administração com ênfase em Comércio Exterior, um curso que nada tem a ver com o caminho que acabei trilhando em minha formação; e é fácil perceber que eu não me encontrei por lá, já que eu me mantive no curso apenas por um semestre, até ter me mudado para o Bacharelado em Engenharia Elétrica; e foi nos laboratórios de Engenharia Elétrica que eu observava pessoas já adultas, que já haviam concluído toda a formação do Ensino Básico — Fundamental e Médio —, mas que mantinham ainda aquele mesmo conjunto de medos, receios, desconfortos, preocupações etc. quando era necessário fazer uso de qualquer equipamento, maquinário, ferramenta etc. Quando íamos ao laboratório, já observava, mesmo ainda antes de termos entrado, os olhares temerosos, assim como lembro-me de ouvir alguns sussurros de colegas pedindo a algum outro membro do grupo para fazer isto ou aquilo. Várias das pessoas tinha vergonha de admitir que tinham medo de mexer nos equipamentos.
Depois de alguns anos, acabei descobrindo, durante conversas com alguns dos ex-colegas, que algumas pessoas chegavam atrasadas propositalmente para não terem que lidar com os circuitos elétricos, as placas de prototipagem, os componentes eletrônicos, os equipamentos de medição de bancada e, principalmente, com a figura da professora, que passava de bancada em bancada para verificar o trabalho dos alunos, mesmo sendo até um tanto amigável. Pense mnisso: alunos, por medo de enfrentar a pressão de terem de mexer nos equipamentos, deliberadamente, chegavam atrasados às aulas de laboratório, de modo a poderem entrar em um grupo em que o trabalho já estivesse sendo conduzido por algum outro aluno e, assim, pudessem se evadir dessa responsabilidade e dessa experiência.
Dava para ver que não era simplesmente maladragem desses alunos; não era uma mera questão de identificar os alunos que fizessem isso e puní-los para que não voltassem a fazer; afinal, a próxima turma teria alunos que fariam o mesmo; e, caso os docentes ou até mesmo a própria instituição passassem a adotar o padrão de já alertar os alunos desde os primeiros dias sobre esse tipo de prática e adotar algum tipo de abordagem que impedisse que algo assim ocorresse, é possível que isso só fizesse com que os alunos acabassem buscando por um outro caminho para continuar a tentar fugir dessas situações amedrontadoras, mas não chegaria a efetivamente resolver o problema. Introduzir algo no próprio processo seletivo do curso para filtrar pessoas que passassem por essas dificuldades também não seria um caminho inteligente, pois deixaria de lado muitas pessoas que teriam enorme potencial para se tornar excelentes profissionais na área, mas acabariam filtradas simplesmente por sofrerem de algum tipo de dificuldade psicológica que poderia — e deveria — ser identificada e trabalhada com o cuidado que merece junto a um profissional competente da área da Psicologia em vez de simplesmente ser removida e mantida com seu medo presente, migrando apenas para alguma outra área em que talvez até fosse menos feliz e menos engajada.
Isso é muito sério. Estamos lidando com um problema que não afeta somente o indivíduo que sofre com isso diretamente, o que já seria motivo mais do que suficiente para ser levado a sério, mas afeta toda a sociedade, o que intensifica ainda mais o teor de seriedade e de urgência demandados para que medidas eficazes sejam tomadas. Posturas como a de simplesmente dizer que isso é problema dessas próprias pessoas e a de reduzir toda a complexidade envolvida ao mero dizer de que é só se esforçar mais ou de que é só questão de praticar, a meu ver, são apenas formas de exibir ignorância sobre o tema; e, estranhamente, com algum orgulho disso. Toda a parte do sofrimento individual do próprio indivíduo já seria motivo muito mais do que suficiente para que tivéssemos de nos debruçar sobre o assunto visando compreendê-lo e, à medida do possível, resolvê-lo ou, no mínimo, atenuá-lo; contudo, já que, infelizmente, uma parcela surpreendentemente expressiva da sociedade — o que inclui os indivíduos que ocupam posições de controle — não se sensibilizaria “apenas” com isso, o que ocorre principalmente por haver uma patológica escassez de empatia na sociedade, temos que incluir em nossa crítica um outro olhar — um que, mais do que ser real, seja também mais apelativo aos olhos de quem tem outras prioridades, que geralmente são menos humanistas; então, vamos lá.
Quem sofre com essas dificuldades não são apenas dois ou três indivíduos. E quem sofre com isso nem sempre consegue aprender a lidar com isso de uma forma suficientemente eficaz e eficiente. É comum que muitas dessas pessoas continuem mantendo consigo essa dificuldade. Essas pessoas crescem, envelhecem e passam a ser mais atuantes na sociedade. São essas as pessoas que, anos depois, podem vir a se tornar profissionais que tenham de atuar junto a algo mais próximo a você; e lembre-se de que, se ela trouxe consigo esses traumas, ela provavelmente teve uma formação mais esburacada do que poderia ter tido se não tivesse de trazer consigo todo esse leque de sofrimentos que a afastaram de oportunidades de aprendizagem mais profundas e mais amplas. E nem adianta ter o típico pensamento estúpido de que bastaria filtrar ainda mais essas pessoas em eventuais processos seletivos, pois, como estamos lidando com quantidades muito expressivas de pessoas que enfrentam problemas assim, não haveria pessoas suficientes para cumprir com todas as funções sociais de forma eficiente se todas as que exibissem comportamentos assim fossem sumariamente excluídas, como se nem ao menos fossem seres humanos. É preciso aceitar essa realidade e tratar as pessoas de forma mais humana.
Pensando nisso, pensei na proposta de ajudar as pessoas a enfrentar isso o quanto antes, desde cedo, o que inclui trabalhos em escolas, mas que também se faça presente na universidade, pois não acho justo ajudar apenas quem está começando a vida; pessoas que já passaram por todos os anos de sua formação inicial com esses medos e traumas também merecem ajuda; e, é claro, tenho que ter sempre em mente que uma parcela expressiva dos que têm o poder de mandar na sociedade não se importa com questões sociais, o que me obriga a considerar sempre o argumento utilitarista de que esse trabalho também visa ajudar as pessoas a ser mais úteis na sociedade — isso me dói pessoalmente, mas, por outro lado, acabo sentindo uma compensação, porque acho que ajuda a entregar resultados positivos aos indivíduos também.
Proponho que criemos a Oficina Permanente (OP). Vamos começar com algo mais próximo do nosso domínio e estudar como podemos aperfeiçoar o projeto de modo a entregar resultados humanamente relevantes. Nossa atuação, portanto, pode ser iniciada dentro da própria universidade, lidando com calouros de graduação que tenham dificuldades com atividades práticas, principalmente as que envolverem uso de máquinas, ferramentas, equipamentos ou produtos que, em maior ou menor grau, envolvam riscos à integridade física dos indivíduos, ou mesmo equipamentos que, ainda que não envolvam riscos à integrigade física de quem quer que seja, possam ser muito custosos ou de complexa obtenção, já que esse tipo de equipamento tende a ser apresentado ao aluno de um modo que muitas vezes mais serve para apavorá-lo do que para convencê-lo a simplesmente ser cuidadoso em seu manuseio, tal como deveria ser o caso, mas não vamos nos limitar apenas a isso; trata-se apenas de uma prioridade inicial. A ideia é identificar alunos que sofram com esses medos e convidá-los a participar das oficinas para que esse medo seja enfrentado de forma segura e psicologicamente acolhedora, sem colocar o aluno em uma posição de cobrança e ameaça, mas, sim, ajudá-lo a compreender o motivo de essa visão negativa se fazer presente e, assim, ajudar a enfrentá-la, o que visa fazer com que o aluno consiga desempenhar melhor seu papel, consiga desenvolver melhor a sua autoconfiança, sinta-se mais empoderado e livre, e, assim, consiga depois atuar de maneira mais competente na sociedade.
Considerando que começaremos apenas com alunos calouros de graduação e que a ideia é ajudar esses jovens alunos a executar tarefas utilizando maquinários, produtos químicos, equipamentos físicos, ferramentas cortantes ou perfurantes, ferros de solda, e por aí vai, é imprescindível que haja algum espaço, preferencialmente, localizado dentro do próprio campus universitário em que esses jovens já realizem seu curso, e onde haja os mesmos equipamentos com os quais esses jovens tenham algum medo, insegurança ou desconforto que os prejudique na hora de executar alguma tarefa relacionada à sua formação. Um exemplo disso é o caso típico de um aluno de graduação em algum curso de Ciência ou Engenharia que se sinta inseguro quanto ao uso de um osciloscópio, ou uma furadeira elétrica, ou torno mecânico de alta rotação, ou uma serra de fita, ou vidraria de química com a utilização de ácidos fortes etc. O aluno precisa aprender que ali há riscos envolvidos e que, portanto, não é o momento de brincar ou se desconcentrar; porém, o aluno também precisa aprender que, desde que a atividade seja desenvolvida com atenção e respeito às normas, não precisa ter medo; as normas, desde que seguidas corretamente, estão ali também para protegê-lo.
Essa é uma atividade que pode ser muito enriquecida com a presença de ao menos um psicólogo — se for uma equipe de psicólogos, melhor ainda, e isso pode se tornar até mesmo uma oportunidade interessante para que vire uma rica fonte de pesquisas para pesquisadores da área da Psicologia, que, assim como atuariam diretamente junto aos alunos que participassem da OP, também atuariam como pesquisadores que partem do que ocorre na OP como uma fonte de informação para estudos de sua área. Isso tanto permitiria acesso a graduandos, pós-graduandos e docentes que realizem pesquisas em áreas de Psicologia. Acredito que, desde que devidamente supervisionados, até mesmo graduandos de Psicologia poderiam ajudar nesse projeto, o que seria benéfico também a eles.
Embora eu continue pensando que seja melhor começar com o foco em atividades que envolvam maquinários, equipamentos, ferramentas, materiais e afins que possam efetivamente representar risco à integridade física das pessoas ou que sejam muito custosos ou complexos de se obter, o que, portanto, envolveria um risco majoritariamente econômico, eu também acredito que haveria outros tipos de atividades que talvez pudessem fazer parte desse projeto — não sei, no entanto, se poderiam fazer parte desde o início. Uma dessas outras atividades, que talvez seja até bem mais simples do que a primeiramente apresentada, é a de simplesmente resolver exercícios ao vivo, diante de uma turma em que haja diversos outros alunos desconhecidos e ao menos um professor. Aos olhos da maior parcela dos estudantes, chega a ser quase aterrorizante a ideia de ter de ir até a frente da sala para realizar qualquer tarefa, principalmente se a tarefa em questão envolver a realização de algo que não permite ensaios, como ter de resolver um exercício inédito diante de toda a turma. Não deveria ser assim. A ideia de tentar resolver um problema novo é algo que faz parte da vida de praticamente qualquer pessoa; logo, deveria ser algo que nós todos deveríamos conseguir enfrentar de uma maneira psicossocialmente saudável.
Para que um projeto desses seja mais eficaz e mais eficiente, é altamente recomendável que nós todos procuremos vencer pensamentos retrógrados, como o de que entende que “forja caráter” expor pessoas a experiências traumatizantes, ou mesmo a antiga e comprovadamente falsa crença em algo que vá na direção de uma suposta “meritocracia”. Devemos avançar como sociedade, e isso significa que todos nós temos que colaborar para que os demais membros da sociedade também possam avançar conosco. Não se trata de uma competição entre indivíduos; não é “cada um por si”. Não podemos nos permitir sentir qualquer forma de contentamento ao observarmos dificuldades e sofrimento em outrem; isso é o oposto da visão humanista. Não se comemora a dificuldade do próximo; não se felicita a partir do sofrimento do outro. Quando observo pessoas apresentando comportamentos que vão nessa direção, independentemente do que tenham dito até o momento ou do que venham a dizer logo em seguida, a não ser que eu constate a partir de suas ações algo diferente disso, admito que sinto que se trata de alguém que não respeita princípios humanistas, e isso me faz pensar que talvez seja alguém que, infelizmente, poderá atuar, sim, no projeto, mas de forma contrária a ele, ou seja, que virá a ser uma barreira extra, uma dificuldade a mais a ser vencida, alguém que estará lá, sim, mas para dificultar, o que é uma infelicidade para todos nós, o que inclui até mesmo o próprio indivíduo que assim atue.
Conforme conversei com diversos colegas, mesmo enquanto nem sequer tinha ainda a ideia de criar um projeto sobre essa questão, senti que havia bastante preconceito quanto à ideia de procurarmos compreender que existem pessoas que sofrem com enorme ansiedade nessas situações, mesmo que talvez não tenham tido exatamente um trauma pessoal. O que me pareceu é que a maioria com quem conversei, ao menos num primeiro momento, exibia um certo ar de deboche em relação a isso, como se essas pessoas, ainda que não fossem uma minoria, só devessem procurar fazer outra coisa da vida, como se isso fosse motivo mais do que suficiente para já confirmar que aquele caminho não seria para elas, e quase sempre as falas que sugeriam “soluções” assim eram acompanhadas de sorrisinhos de deboche, com um certo ar de superioridade, aos moldes do “esse caminho não é para todos”, meio que sugerindo haver uma distinção hierárquica com topologia necessariamente vertical, mesmo que não exclusivamente vertical, falando já de cima para baixo com o intuito de, implicitamente, deixar registrado que essa pessoa que falava estaria em uma posição daqueles que conseguem, dos que dão conta, dos que são capazes; e, como isso, em uma circunstância como essa, passa a ideia de significar que se trata de alguém melhor que os demais — talvez, até de um ponto de vista biológico, o que seria significativamente mais perigoso e abjeto —, acho que não preciso explicitar o tamanho do perigo que pensamentos assim talvez possam acabar ajudando a reforçar de pior na sociedade. Não sejamos assim.
Algo de que me lembro também de ter ouvido durante conversas que tive sobre isso — já em uma época em que eu já havia pensado mais a respeito e já gostaria de criar um projeto para ajudar a resolver esse problema — é o pensamento de que algo assim seria totalmente desnecessário porque bastaria que a pessoa interessada manifestasse sua dificuldade ao professor, principalmente quando o professor perguntasse se havia ficado alguma dúvida pendente. Esse é um pensamento problemático, pois ele parece sugerir que a questão é meramente racional e mecânica, como se quem tivesse dificuldades com essa questão jamais tivesse pensado em pedir ajuda ao professor e, portanto, bastaria pedir ajuda, que isso já seria suficiente para resolver tudo; ou, o que não seria tão menos problemático assim, que, se o docente não fosse capaz de lidar com isso de uma forma suficientemente eficaz, bastaria que docentes mais capazes assumissem seu lugar, o que seria uma “solução” ainda mais problemática, pois mais problemas seriam criados com a finalidade de tentar resolver os problemas de um primeiro grupo de pessoas; ou seja, em vez de resolver o problema ou ao menos amenizá-lo, haver mais problemas nascendo a partir dessas “soluções”. Infelizmente, principalmente quando os problemas envolvem questões psicológicas, aparentemente, há ainda uma parcela muito expressiva da população que não tem respeito por isso, pois não enxerga nisso uma questão real, complexa, difícil de ser abordada e resolvida; lembra-me muito a visão atrasada de mundo que leva muitos indivíduos a pensar que estresse, depressão, Burnout, estafa, Transtorno do Espectro Autista (TEA), Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH), entre tantas outras questões que envolvem a mente humana, são simplesmente “frescura”, “falta de um trabalho”, “vagabundagem”, “preguiça”, “falta do que fazer”, “falta de Deus”, ou qualquer outro modo de pensar que seja completamente descolado da realidade e da Ciência, o que é ainda mais triste por saber que também ocorre dentro de uma universidade e, para piorar, ocorre até mesmo entre docentes, que são indivíduos que tiveram toda uma série de experiências de aprendizagem durante a vida, o que inclui mas não se limita a graduações, mestrados e doutorados, e, mesmo assim, possuem visões precárias e ultrapassadas assim.
Isso também me lembra o caso de pessoas que adorariam poder se formar e atuar como professores, mas que sentem que, devido a medos, ansiedade, receios, preocupações, angústias etc., acreditam que não dariam conta, não por falta de interesse, não por falta de vocação, não por falta de aspiração, não por falta de vontade, mas, sim, por falta de condições psicológicas plenamente administráveis, contornáveis ou até mesmo solucionáveis, mas que, devido à falta de uma de um ambiente menos insalubre e à falta de condições socioeconômicas, muitos acabam optando por deixar de lado isso — que muitas vezes chega a ser até mesmo um sonho — porque sentem que ali não é o seu lugar, o que normalmente não é verdade; só é uma questão de sensação de falta de pertencimento, de falta de empoderamento e de falta de acolhimento. Mas esta proposta visa também ajudar a atenuar esse problema. A essência do grupo precisa ser a de garantir que todos sintam que o não saber não é um problema ali; há total espaço para a dúvida. Essas pessoas que querem ser professoras também se beneficiariam muito da OP, já que poderiam ver nela a oportunidade de dar seus primeiros passos profissionais, tanto ajudando a si mesmas com suas dificuldades quanto ajudando colegas que sofressem de dificuldades similares, o que seria também um grupo de estudos. Haveria bastante espaço para realização de projetos de extensão e grupos de estudo interdisciplinares.
A bem da verdade, uma parcela bastante expressiva das experiências projetadas para compor o que seria feito na OP poderia já ser realizada nas disciplinas, tanto de aulas teóricas quanto de aulas práticas, mas, devido a uma série de motivos, não podemos contar com isso, pois sempre foi possível realizar boa parte disso nessas disciplinas, mas nem por isso essas coisas são feitas, e uma parcela disso se deve ao fato de os docentes já se encontrarem sobrecarregados e, também, ao fato de uma parcela muito significativa desses docentes ter um olhar negativo e preconceituoso em relação aos jovens que enfrentam dificuldades relacionadas a questões psicológicas, justamente aos moldes da ideia de que, supostamente, depressão e estafa seriam “frescuras”; logo, não há como contar muito com ações dependentes de empatia e boa-vontade advindas de gente assim; afinal, essas são, aliás, justamente algumas das pessoas que, na verdade, causam ou intensificam tais problemas, ou seja, são parte do problema. Parte importantíssima do que eu acredito que uma universidade deveria fazer é produzir egressos que sejam livres pensadores críticos em suas respectivas áreas de formação; e, para isso, é imprescindível que, principalmente quando a área de formação envolve uma determinada prática, ter dificuldades — ainda que psicológicas — para realizar determinada prática é, sim, um problema sério a ser reconhecido e ativamente enfrentado pela instituição de ensino.
É importantíssimo que as instituições de ensino superior se preocupem com isso e, assim, tomem alguma atitude real, efetiva e eficaz no sentido de tentar resolver o problema. E vale reforçar que é um problema que, ainda que indiretamente, acaba afetando a todos nós, a toda a sociedade civil, já que — volto a dizer — são esses os indivíduos que em algum dia virão a se tornar os profissionais que atuarão na sociedade; e, mais do que isso, esses indivíduos podem ser aqueles que, por medos, ansiedade e desconfortos, podem ter chegado ao ponto de desistir de se formar em diversas áreas, e essa carência por mão de obra qualificada pode vir a ser um problema também. Não seguir por um caminho profissional por realmente não ter interesse algum ou motivação alguma é algo compreensível; agora, por outro lado, não seguir por um caminho profissional com o qual há uma clara sensação de afinidade, mas não seguir devido a uma ansiedade bastante acentuada e nunca devidamente tratada, a meu ver, não é algo compreensível e aceitável, tanto a partir da perspectiva individual quanto a partir da perspectiva coletiva.
Empoderamento digital a idosos
Uma parcela bastante expressiva de nossa sociedade é composta de idosos. Segundo o Censo 2022, a população brasileira com 60 anos ou mais passou dos 32 milhões de pessoas, o que corresponde a mais de 15 % da população. Não podemos fingir que essas pessoas não existem. São pessoas que nasceram em uma outra época, em todo um outro contexto sociocultural. Não podemos negligenciar nossas responsabilidades para com essa parcela da população. Essas pessoas não podem ser igoradas ou maltratadas; elas devem ser acolhidas e respeitadas, assim como também devem se sentir como parte relevante da sociedade. Elas são bem-vindas e merecem se sentir assim, mas, mais do que isso, elas devem ser o mais livres possível, o que significa que devem ter o maior grau de autonomia e independência que conseguirem. O problema é que hoje a forma como o mundo se comunica mudou muito em relação ao que elas aprenderam ao longo de suas vidas, e isso se tornou uma barreira para que elas interajam com o mundo de maneira saudável, conveniente e prazerosa.
Anos atrás, mesmo em uma época em que várias dessas pessoas já eram adultas plenamente desenvolvidas, a comunicação com o mundo acontecia de outra forma. Essas pessoas tinham de se comunicar presencialmente, cara a cara, na maior parte das vezes; ou, quando queriam interagir remotamente, a solução se dava por meio de cartas, telegramas ou, anos depois, por telefone. Claro que existem pessoas idosas que não têm uma idade tão avançada assim e, portanto, não sentirão que a situação seria tão extrema assim, mas há, sim, diversos idosos com 90 anos ou mais na sociedade e que têm plenas condições de viver o mundo com muita intensidade e independência, mas que, devido a barreiras tecnológicas, sentem-se digitalmente excluídas da sociedade, o que é um absurdo. Alguém que tenha hoje 90 anos, em 2025, nasceu em 1935. Essa pessoa atingiu seus 20 anos de idade em 1955, enquanto ainda nem sequer havia linhas telefônicas amplamente popularizadas pelos lares brasileiros, o que só veio a acontecer nos anos 2000, quando essa pessoa já teria 65 anos ou mais, a depender de qual fosse o ano da década de 1990 ao qual nós estivéssemos nos referindo, ou seja, quando já era idosa. Aliás, isso se essa pessoa fosse de uma região altamente urbanizada, porque, caso ela fosse de uma outra parte do país, mesmo que se tratasse de um centro urbano, é possível que ela só fosse ver essa popularização ocorrendo já mais ao final da década de 2000; possivelmente, até depois de 2010, a depender do município em questão. Em um caso assim, de, digamos, 2010, essa pessoa já estaria com seus 75 anos. É uma idade em que, caso a pessoa ainda esteja com boa saúde, física e mental, talvez ainda esteja interessada em aprender a utilizar outros recursos tecnológicos, mas nem todos estariam. E notem que eu estou falando apenas de algo que fosse além da típica telefonia. Mesmo que a pessoa tivesse seu próprio telefone celular, o que essa pessoa talvez ainda não tivesse, ela talvez ainda não estivesse familiarizada ao uso de um Smartphone.
Eu mesmo, que nasci em São Paulo / SP, apesar de já ter feito uso de telefones celulares muito antes disso, só passei a ter um Smartphone em vez de um simples celular no ano de 2013, e não foi rápida a minha adaptação para fazer um bom uso do que o aparelho tinha a oferecer, mesmo comigo tendo feito uso de consoles de videogame desde 1992, tido meus primeiros contatos com computador pessoal (PC, Personal Computer) em 1994, acessado a Internet desde 1995, tido Banda Larga em casa desde 2001, tido feito um curso técnico em informática em 2004, tido iniciado um Bacharelado (inacabado) em Tecnologia da Informação na FATEC em 2009 junto com Bacharelado (inacabado) em Engenharia Elétrica na Mackenzie também em 2009, além de ter iniciado o Bacharelado em Ciência e Tecnologia em 2011 e ter tido acesso à Internet via fibra óptica desde 2011, só em 2013 eu fui ter um Smartphone, e não senti que foi fácil a transição dos meus antigos celulares para um Smartphone. A tela era muito bonita, sim, mas, a bem da verdade, eu só havia abandonado o meu antigo celular porque ele havia quebrado; caso contrário, eu teria continuado com ele; afinal, para ser franco, eu só via desvantagens em ter aquele Smartphone. Eu teria que andar com um produto muito maior, muito mais frágil, muito mais caro, muito visado por bandidos (em uma cidade perigosa mesmo à época), com uma tela que era basicamente vidro exposto a qualquer tipo de choque mecânico — naquela época, não era comum termos capas protetoras tão boas e acessíveis quanto temos hoje —, com uma bateria que acabava super rapidamente, além de ter uma série de distrações que mais serviam para incomodar do que para melhorar a minha vida de alguma maneira efetiva. Ainda assim, aderi aos Smartphones e acabei gostando de algumas funcionalidades, sim.
Se eu, com esse histórico de quem sempre teve contato com tecnologia, além de ter uma idade bem menos avançada do que a dessas pessoas, e tendo ainda passado por formações formais diretamente relacionadas a áreas de tecnologia, tive várias dificuldades no começo, imaginem como seria no caso de uma pessoa nascida várias décadas atrás, que tenha passado sua vida em uma região em que a tecnologia chegava só muitos anos depois de já ter se popularizado por outras localidades do mesmo país, e que nem ao menos tenha tido uma formação em área de tecnologia. Para alguém assim, as tecnologias contemporâneas talvez sejam barreiras enormes. Essas pessoas até chegaram a ver a tecnologia avançando, aparecendo aqui e ali, e sendo, aos poucos, popularizada; porém, o avanço tecnológico era realmente lento na época em que elas eram mais jovens; nas últimas décadas, por outro lado, nós saímos de uma situação em que quase ninguém tinha um computador e, mesmo que tivesse, dificilmente teria acesso à Internet, para uma situação em que quase todo mundo anda por aí com um Smartphone no bolso com acesso permanente à Internet sem fio. No tempo dessas pessoas, quando você tinha que falar com alguém, você enviava uma carta, ou telefonava, ou até ia ao encontro pessoal do indivíduo; hoje, por outro lado, quase ninguém telefona mais, já que, culturalmente, a ligação telefônica passou a ter o significado de que algo muito sério ocorreu, como a morte de alguém, um acidente, uma conversa séria com o chefe ou com um cliente, ou algo assim, e se você simplesmente aparecer pessoalmente sem antes ter agendado a visita, muitas pessoas acharão que se trata de uma conduta inadequada, desrespeitosa, de pouca noção da realidade cultural, e por aí vai.
O que se espera hoje em dia é que você envie mensagens por meio de algum aplicativo instalado em seu celular — sim, aqui eu utilizei o termo “celular”, mas vamos deixar claro que eu me referi ao Smartphone, pois hoje em dia as pessoas chamam os Smartphones apenas de “celular”, exceto por algumas poucas outras situações —, que geralmente costuma ser Whatsapp ou Telegram. Essas pessoas até podem ter pego a época do serviço de mensagens curtas (SMS, Short Message Service), mas dificilmente chegaram a fazer um uso muito intenso disso, pois antigamente era um serviço caro; você só usaria se realmente precisasse; só depois é que começou a baratear até chegar ao ponto de qualquer um poder usar à vontade pelo simples fato de ter um plano de assinatura de telefonia móvel; e, quando isso passou a ser assim, as pessoas já praticamente não usavam mais; e, de fato, quase ninguém usa SMS mais; isso acabou ficando mais nas mãos de empresas que ainda usam o SMS para enviar pontuais informações, como um código de segurança para acessar alguma plataforma como recurso de dupla camada de segurança. Até conheço quem ainda use SMS, mas é algo tão atípico hoje em dia, que nem faria sentido considerar.
Ainda ao final dos anos 1980, já havia sido lançado o Internet Relay Chat (IRC), que foi amplamente popularizado entre os anos 1990 e o início dos anos 2000. O IRC seguia uma topologia cliente-servidor para funcionar. Os clientes mais famosos eram o mIRC e o HaxChat. Essa tecnologia permitiu que pessoas do mundo todo pudessem conversar por mensagens de texto via Internet. Tratava-se de algo surpreendentemente rápido para a época, já que, ainda que a rota não fosse das melhores, uma mensagem não chegava a levar 1 segundo para sair do computador do remetente, passar pelo servidor e chegar ao computador do destinatário, a não ser que algum problema atípico tivesse ocorrido. Então, pessoas, mesmo ainda ao final dos anos 1980, desde que estivessem munidas de um computador com acesso à Internet e que soubessem como fazer uso desse recurso computacional, já seriam capazes de se comunicar por meio de mensagens que viajariam milhares de quilômetros pelo mundo em uma fração de segundo, o que hoje talvez não pareça tão surpreendente assim, mas que àquela época era algo impressionante, visto que ainda era comum que pessoas dependessem do serviço postal de seu país, que poderia levar dias, semanas ou meses, a depender do cenário em questão. É uma diferença entre milissegundos e, no melhor dos casos, dias. Claro que havia a necessidade de acesso à tecnologia no sentido de efetivamente possuir um computador e de haver infraestrutura funcional de acesso à Internet; porém, também havia a necessidade de ter acesso à tecnologia no sentido saber o que fazer para utilizá-la de forma funcional, e isso, infelizmente, era algo que pouquíssimos pelo mundo tinham. Naquela época, quase ninguém no mundo sabia que isso existia, quiçá, já havia ouvido falar, mas não utilizava por falta de conhecimento, ou por falta de equipamento, ou por falta de infraestrutura.
A respeito da parte da posse do equipamento e da garantia da infraestrutura local dos indivíduos, não há muito o que nós, acadêmicos, possamos fazer de forma realmente efetiva; por outro lado, em relação ao conhecimento, há muito o que podemos fazer. Nós podemos ajudar com uma curadoria, que visaria garantir que as pessoas só recebessem informações da mais alta qualidade, devidamente filtradas para garantir que não fossem enganadas com bobagens de Marketing; podemos ajudar as pessoas a identificar o que pode ser mais adequado às suas necessidades, às suas aspirações e às suas realidades; podemos ajudá-las não só a fazer uso dessas soluções, mas também a desenvolver autonomia e independência no sentido de que, quando elas desejarem adotar outras tecnologias, elas não voltem a se sentir reféns das tecnologias mais antigas, mas, sim, que consigam experimentar as novas tecnologias que surgirem e que consigam aprender a utilizá-las de forma eficiente.
Partindo do fato de que pessoas tendem a ter maior abertura ao diálogo com quem se identificam, acredito que possamos aceitar a ideia de que, portanto, pessoas idosas talvez tenham maior facilidade para dialogar com outras pessoas idosas; assim, se isso for verdade, pode ser interessante ajudarmos a preparar algumas dessas pessoas para que sejam capazes de também ajudar outras pessoas idosas a alcançar esse empoderamento tecnológico, ampliando significativamente o alcance do projeto. Isso não significa que pessoas mais jovens não possam se comunicar com pessoas mais idosas, mas, sim, que pessoas de uma mesma faixa etária tendem a ter menos dificuldades para dialogar entre si, o que faz com que, pensando em eficiência, faça mais sentido investir esforços no sentido de estratificar a sociedade segundo faixas etárias e alocar os agentes de acordo com a faixa etária à qual ele pertence; e, possivelmente, outras abordagens de segmentação também possam ser exploradas visando a maximização da eficácia e da eficiência do projeto. No fim das contas, o que importa é haver mais pessoas com sua autonomia e sua independência no uso das tecnologias de forma saudável e orgânica, sem sofrimentos, sem precisar implorar para que terceiros se sensibilizem e ajudem, sem ter medo de aderir a outras tecnologias que surgirem após a realização do projeto, sem ter medo de fazer besteiras ao utilizar recursos tecnológicos etc.
Agora, há um outro lado do projeto que também precisa ser esclarecido desde já. Embora seja nosso desejo ajudar pessoas idosas a desenvolver autonomia e não se sentirem tecnologicamente marginalizadas, não é o intuito desde projeto estimular vícios, assim como também não é nosso desejo criar novas dependências. As pessoas precisam aprender a fazer um uso saudável da tecnologia, e não terceirizar suas vidas e seu destino para que a tecnologia tome conta. Não podemos deixar de ter a responsabilidade de incluir em nossas pautas do projeto as questões relacionadas ao uso ético e ao uso saudável da tecnologia. Não podemos permitir a criação de uma legião de idosos que passem a se empoderar tecnologicamente para que, no fim das contas, acabem caindo nas mãos de sistemas de cassinos Online, plataformas de apostas, ou mesmo que sejam agarrados pelo já bastante antigo consumismo desenfreado, além dos famosos golpes que focam justamente o público idoso e que são ainda mais difíceis de controlar pela Internet.
O primeiro passo precisa ser o da divulgação. Não é um público qualquer; é necessário pensar cuidadosamente em qual será a abordagem de divulgação a essas pessoas. Penso que o melhor seja diversificar as frentes de comunicação, mas não podemos simplesmente escolher aleatoriamente quais serão os modais de comunicação a serem explorados pelo projeto. Ainda que todos tenham algum alcance e alguma importância, certamente, é mais aconselhável primeiro fazer uma pesquisa para saber como esse público específico se informa; afinal, é com esse público que precisamos nos comunicar agora. Precisamos saber não apenas quais são os modais de comunicação mais utilizados por essas pessoas, mas também quais são as formas com que essas pessoas utilizam tais modais. Por exemplo: saber que a pessoa faz uso de rádio é uma informação relevante, mas saber que ela simplesmente deixa o rádio ligado e sintonizado em uma estação qualquer, só para haver algum barulho no local em que estiver, com a pessoa nem sequer prestando a mínima atenção a qualquer coisa que seja dita ali, a meu ver, já muda significativamente a visão que teríamos sobre o quão viável seria a utilização de uma divulgação por meio de rádio se considerássemos pessoas como essa, já que seria um desperdício de recursos.
Alguns modais são bastante óbvios em relação à relevância, como é o caso da televisão, sobretudo canais abertos e nos assim chamados “horários nobres”, mas talvez seja muito difícil de arcar com os custos associados a uma abordagem assim; e, por mais que isso seja um absurdo, é provável que o Estado não priorize algo assim e, portanto, não haja qualquer tipo de ajuda para a utilização de mecanismos de divulgação de ampla capacidade, como é o caso da televisão pública; contudo, ainda assim, insisto que devemos tentar buscar meios de alcançar modais assim devido ao quão significativo é o alcance, pois isso facilitaria demais para uma expressiva parcela dessa população. Ainda que talvez tenhamos de nos contentar temporariamente com algo como um canal de menor alcance — talvez, até canais menores, locais —, e ainda que talvez precisemos ficar apenas com horários de menor audiência, é possível que isso já seja suficiente para, ao menos em um primeiro momento, mostrar a uma parcela desse público a existência do projeto, o que, embora não seja o ideal, é relevante, até mesmo pelo fato de que essa pessoa depois pode ajudar a propagar as informações a seus pares de forma mais orgância depois — a famosa comunicação “boca a boca”. Alguns programas jornalísticos, sejam eles de grandes telejornais ou de canais menores, regionais, podem ter o interesse de fazer alguma matéria cobrindo esse tópico, o que seria muito bom para fins de alcance do projeto, mas essa seria uma estratégia um tanto frágil, já que não podemos contar com a boa vontade e com o interesse dos editores de tais jornais para que, só então, haja alguma divulgação por esses modais. Isso significa que esse caminho, ainda que entre para as possibilidades, entraria meramente como algo secundário e que não pode fazer parte do que se espera que ocorra frequentemente.
No caso de estações de rádio, isso não seria tão diferente assim, mas penso que hoje em dia, mesmo entre o público idoso, já seja um modal substancialmente menos expressivo em termos de efetividade de alcance. E temos, ainda, que compreender que tanto as emissoras de televisão quanto as emissoras de rádio passaram — ou, no mínimo, estão ainda passando — por uma adaptação para também estarem presentes na Internet, ainda que de uma forma um tanto tímida e incompleta, como simplesmente ter um canal no YouTube em que, vez ou outra, posta algum conteúdo por lá. Essas emissoras estão tentando ocupar algum espaço na Internet, sempre procurando tomar o cuidado de verificar onde estão seus espectadores e, portanto, onde elas também devem estar; e isso significa que, assim que elas tiverem a impressão de que está havendo uma migração acentuada de seu público entre esses diferentes modais, elas também farão esse movimento para tentar não perderem esse público; e, mais ainda, também acredito que isso signifique que é possível que essas emissoras reduzam cada vez mais as suas atuações nesses modais mais tradicionais para, aos poucos, investir cada vez mais em ampliar o seu alcance nesses — e, talvez, em breve, apenas nesses — novos modais, o que significa que, cada vez mais, as pessoas passarão a ter menos opções para se manterem informadas, mas, mesmo assim, enquanto isso não ocorre, esses modais clássicos ainda permanecem relevantes para que nós cheguemos a essas pessoas mais idosas para fins de propagação deste projeto.
A utilização de redes sociais para fins de divulgação do projeto também deve fazer parte das estratégias de divulgação, ainda que talvez isso aparente ser algo contraditório no caso deste projeto, porque diversos desses indivíduos já conseguem fazer algum uso de recursos tecnológicos, mesmo que precariamente, e diversos também conseguem fazer uso com o auxílio de algum familiar ou amigo; e, mais do que isso, vários familiares e amigos desses indivíduos, sobretudo os mais jovens, fazem uso da Internet; assim, essas pessoas também podem ser alcançadas a partir de terceiros. Uma pesquisa também pode nos ajudar a compreender quais são as principais redes sociais mais utilizadas por idosos no Brasil; então, podemos começar focando nessas redes específicas. Mais do que isso, não basta estar nas redes sociais; é preciso compreender como o idoso utiliza as redes sociais, de modo a ajudar a moldar melhor de que modo essa divulgação será feita.
Este projeto pode funcionar de forma híbrida — presencialmente e remotamente —, possivelmente, com abordagens e focos distintos, mas, ainda assim, podemos dedicar múltiplas frentes em direção à solução desse problema. Em geral, dou mais adepto do modelo presencial para trabalhos assim, mas reconheço que o modelo remoto pode oferecer algumas oportunidades interessantes de práticas já relacionadas até mesmo ao próprio projeto, já que o modelo remoto demandaria o uso de algumas tecnologias, e isso poderia servir já para estimular os participantes a exercitar desde o primeiro dia o uso dessas tecnologias; e, fora isso, também seria possível aumentar o alcance do projeto para ajudar pessoas que não tivessem condições de comparecer presencialmente ao campus universitário, o que, considerando o público-alvo em questão, pode ocorrer até mesmo em casos de indivíduos que morem pelos arredores do campus.
Não sou contrário à ideia de existir uma frente do projeto sendo feita no modelo remoto; porém, sou contra a ideia de tentar fazer com que o modelo presencial seja extinto, pois tenho consciência de que há cenários, tópicos e abordagens que podem ser significativamente afetados de forma negativa se o modelo remoto for imposto em caráter mandatório, como o caso de pessoas que se encontrem em cenários de quase total exclusão tecnológica. Essas, aliás, são justamente as que mais precisam de um projeto como este, o que faz com que não faça o menor sentido propor algo assim e excluir ainda mais justamente essa parcela do público.
Pelo modelo presencial, seria possível, por exemplo, ter alguns dispositivos disponíveis para uso de participantes que ainda não possuam os seus próprios, ou mesmo a quem tiver se esquecido de trazer o seu. Esse é um ponto interessante a ser explorado também, pois uma queixa comum é a de que idosos, quando aprendem a utilizar um específico modelo de dispositivo, tendem a se sentir desconfortáveis quando trocam de dispositivo; então, como o objetivo do projeto é o de ajudá-los a se empoderar tecnologicamente, parte dos objetivos é que eles concluam o processo sentindo-se aptos a utilizar qualquer dispositivo Mobile, como um Smartphone ou um Tablet, ainda que se trate de um modelo inédito, recém-lançado. Isso não significa que não haverá desafios ao se depararem com um dispositivo novo, pois qualquer um de nós também teria desafios, mas, sim, que serão desafios que eles sejam plenamente capazes de vencer; e, mais do que isso, desafios que eles próprios percebam que são, sim, capazes de vencer — sim, há uma componente psicológica no projeto.
Um outro ponto interessante no projeto é que nem todos os participantes que atuarem como tutores sejam grandes especialistas no assunto, porque é interessante que os idosos observem por conta própria, em campo, empiricamente, que até mesmo os mais jovens, mesmo quando são alunos de cursos de exatas bastante próximos àquela tecnologia, como Ciência da Computação ou alguma engenharia com proximidade em relação à Engenharia Elétrica, também enfrentam dificuldades que os levam a se confundirem ou a se esquecerem de algo que produza algum erro no uso das tecnologias. Isso é muito bom, pois mostra que eles não são um grupo inferior, um grupo atrasado, um grupo incompetente etc., assim como também cria a oportunidade de mostrar que erros acontecem, sim, mas que há como contorná-los de alguma maneira; então, nesse momento, com essa oportunidade já preparada para isso, mostramos aos idosos como corrigir o erro. Podemos pensar em erros mais comumente cometidos para usarmos como casos mais prováveis de ocorrer com eles, mas temos que estar abertos a situações novas.
É muito importante termos em mente que, como estamos lidando com pessoas idosas, é provável que precisemos verificar com muito cuidado quem são os participantes que poderão atuar como tutores do projeto; afinal, esses idosos já estão com dificuldades para lidar com o uso das tecnologias sozinhos; eles não precisam de alguém que produza uma elevação de seus níveis de estresse e ansiedade; eles precisam de pessoas que, antes de qualquer outra coisa, tenham paciência e ao menos alguma afabilidade. Algo a ser estudado é como lidar com casos de participantes que sofram de alguma comorbidade, algum transtorno, alguma doença ou algo assim, o que, por se tratar de um público idoso, é significativamente mais provável que ocorra do que em outras faixas etárias; contudo, a não ser que se trate de algum quadro que efetivamente impossibilite o indivíduo de participar, não devemos agir de um modo que intensifique ainda mais o nível de exclusão desse idoso; a ideia deve ser diametralmente oposta a essa, pois o acolhimento é parte central de um projeto dessa natureza; porém, ainda assim, não há como ignorarmos o fato de que há quadros que, por mais que todos desejemos ajudar, talvez estejam muito além de nossas capacidades. É algo a ser analisado com muito cuidado, caso a caso.
Sem dúvida, hoje em dia, o principal aparelho a ser abordado por este projeto é o celular (Smartphone). Cheguei a pensar em iniciar com o processo de compra, pois vários desses idosos podem até nem ao menos ter um aparelho próprio, mas depois pensei que o próprio processo de compra, para ser feito de uma maneira mais confiável, depende de noções que já devem ter sido adquiridas, desenvolvidas ou aprimoradas pelo potencial comprador; logo, passei a acreditar que faz mais sentido iniciar diretamente com o uso do aparelho e, assim, deixar para dar dicas sobre a compra — se é que chegaremos a isso — mais à frente. Isso reforça o ponto que eu já havia mencionado sobre ser importante termos disponíveis algums modelos de celulares contemporâneos para que os idosos se familiarizem. Sobre isso, é importante tomarmos o cuidado para que não acabemos criando mais problemas por conta de uma equivocada forma de economizarmos, porque, sabendo que a questão financeira é bastante relevante — e muito “apertada”, além de também sabermos como costumam pensar os responsáveis por lidar com a parte financeira, pode haver a tendência de quererem fazer uso de aparelhos muito antigos, ou com defeitos, ou mesmo com sérias avarias. Esses idosos podem até estar iniciando seus contatos com essas tecnologias, mas é inadmissível que precisem fazer uso de aparelhos defeituosos, desatualizados ou em más condições de uso. Para que o projeto seja devidamente conduzido, os idosos precisam ter contato com aparelhos em perfeito funcionamento, sem qualquer tipo de avaria que comprometa, ainda que minimamente, o seu uso. Isso significa que, por mais que haja custos associados a isso, é importante incluir o custo da aquisição de aparelhos celulares no orçamento do projeto, assim como é importante incluir custos associados à manutenção desses aparelhos.
Podcast de Ciência de Dados
Conheci os Podcasts aproximadamente em 2009. Naquela época era difícil de tomar conhecimento da própria existência dos Podcasts, assim como também era pouco prático de consumir os episódios e, para piorar, a maior parte dos poucos Podcasts demorava para publicar novos episódios. Apesar de já existirem Smartphones à época, quase ninguém os possuía no Brasil. A maior parte da população dependia de um computador com acesso à Internet para baixar os novos episódios. Para ouvir os episódios, felizmente, como eram apenas arquivos de áudio em MP3 — mas não de uma qualidade elevada como as versões que usamos hoje em dia, já que, à época, 96 kbps era uma taxa de bits considerada elevadíssima para algo desse tipo —, podiam ser reproduzidos com um celular com suporte à reprodução de MP3 — nem todos suportavam isso, mas havia algumas opções disponíveis no Brasil. Outra opção era a de um dispositivo MP3, que já estava caindo em desuso, mas que ainda eram vistos sendo utilizados por boa parte da população, sobretudo entre os mais jovens.
Poucos anos depois, uma parcela significativa da população havia passado a ter Smartphones, além de já estarmos, à época, em um período de ampla popularização da rede 3G pelas cidades brasileiras, e caminhando em direção ao 4G, que viria a ser lançado no Brasil em 2013. Então, com as pessoas tendo mais amplo acesso à Internet móvel, maior adesão ao uso de Smartphones, além de maior familiaridade com tais tecnologias, os Podcasts começaram a se popularizar de forma bem mais rápida e ampla. Ao longo dos anos da década de 2010–2019, os Podcasts foram se popularizando relativamente bem; porém, durante a Pandemia da COVID-19, com as pessoas precisando permanecer em suas residências, houve uma expansão realmente impressionante, o que se intensificou ainda mais por conta de uma mudança severa no modelo hegemônico mais bem-aceito, quando passou a ser comum a proposta de Podcasts com o recurso de vídeo, o que muitos puristas passaram a criticar porque, a partir de seu ponto de vista, ser uma descaracterização do que seria propriamente um Podcasts, visto que, originalmente, seria um formato exclusivamente de áudio; e, mais do que isso, outra mudança significativa foi o fato de que vários programas que se chamavam de Podcasts passaram a transmitir os programas ao vivo, tal como diversos programas de televisão, e isso também foi criticado por puristas do Podcast, já que a proposta do Podcast é a de que o programa seja gravado e distribuído de modo que pudesse ser consumido, apenas em áudio, quando os ouvintes bem quisessem. Desses conflitos, que haviam se iniciado de formas um tanto espinhosas, passaram rapidamente a ser uma disputa praticamente encerrada, porque, embora vários Podcasts sejam, sim, transmitidos ao vivo, o mais comum é que até mesmo esses acabem permanecendo gravados e disponíveis ao público para serem assistidos quando o indivíduo quiser; e, além disso, embora haja o recurso de vídeo, não se trata de um modal de informação que impede o ouvinte de acompanhar o Podcast apenas por áudio; trata-se de uma opção — o espectador pode assistir à versão em vídeo, assim como pode ouvir a versão apenas em áudio.